Sabrina Noites 40 - The Cop And Choras Girl

Podem esses opostos se atrarem? O melhor de Nova York: O que 1 tira bonito deveria fazer ao ser praticamente assaltado por 1 loira explosiva que fugia da igreja vestida de noiva? Ajud-la, claro. Principalmente, quando a noiva indecisa no era outra seno a monumental e estonteante Dixie Davis, o smbolo sexual de todos os americanos.A noiva fugitiva: Graas a Patrick Flynn, Dixie Davis escapara de casar-se com 1 notrio gngster. Ianques austeros nunca fizeram seu tipo, porm, Dixie sentiu-se repentina e profundamente atrada pelo guarda-costas improvisado. Ser que um homem como Patrick se deixaria envolver por uma mulher que havia abandonado o noivo no altar?

Digitalizao e Correo: Nina


Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1996
Publio original: 1995
Gnero: Romance contemprneo
 Estado da Obra: Corrigida


SRIE ATRAO ENTRE OPOSTOS  (OPPOSITES ATTRACT )

1. The Pauper And The Pregnant Princess (1995)
2. The Cop And The Chorus Girl (1995)
3. The Cowboy And The Calendar Girl (1998)


Serie Opostos (Opposites Attract)

N	Ttulo	Ttulo original	Coleccin	Protagonistas/
Data
1	Princesa Pecadora	The Pauper And The Pregnant Princess	Desejo NC 56	Crash y Cordelia/
Mar-1995
2	Beijo Encantado	The Cop And The Chorus Girl	Sabrina Noivas 40	Flynn y Lucy/
May-1995
3		The Cowboy And The Calendar Girl		Hank y Carly/
Apr-1998











CAPITULO I

	Todos motoristas de txi de Nova York acreditam que so pilotos de jato  Patrick Flynn resmungou, depois de desviar sua possante Harley-Davidson, fugindo do txi que voava pela Quinta Avenida.  Hei, companheiro  gritou para o motorista.  Est tentando me matar?
Entretanto, era Flynn quem seria capaz de matar quem se atrevesse a encostar em sua preciosa motocicleta. Passara quatro anos reconstruindo essa maravilha na sala de visitas de seu apartamento, em West Side. Fora um trabalho longo, cheio de amor, e no planejava v-lo danificado logo no primeiro passeio pelas ruas de Manhattan.
Queixando-se da falta de sensibilidade das pessoas, que no sabiam apreciar a qualidade da mquina, Flynn encostou no meio-fio, enquanto o trfego corria pela avenida. Imaginou ter ouvido um rudo estranho no motor. Desceu da moto, tirou o capacete e inclinou-se para ouvir mais atentamente.
Ou melhor, fingia ouvir.
Qualquer transeunte que o observasse diria que ele era um rapaz comum, preocupado com o motor de sua moto.
Na realidade, Flynn era um policial de prontido. Numa distncia de dois quarteires, notara dois homens dentro de um carro suspeito, outro homem passando por mendigo e uma mulher fingindo ver vitrines. Flynn parecia entretido com o motor.
Porm, o motor da Harley estava perfeito. Flynn no pde evitar um sorriso de satisfao. Nunca vira uma moto to bonita e nunca ouvira um som de motor mais sincronizado do que aquele. E fora ele quem construra aquela mquina maravilhosa. Com uma pequena ajuda do irmo Sean, reconhecia.
De repente, um grito quebrou a magia daquele momento de contemplao.
	Que diabos...  Flynn olhou a tempo de ver uma mulher saindo em disparada de uma igreja prxima. Num movimento rpido, a mulher fechou as portas macias atrs de si.
	Socorro!  ela gritava.  Ajudem-me!
Todos os policiais ficaram estticos diante de uma situao totalmente inusitada.
	Socorro!
Ela usava um vestido de noiva exuberante. Completo. Com muito brilho, prolas, vu, grinalda e uma cauda enorme. O vu estava preso a um... sim, a um chapu de caubi. Flynn estreitou os olhos para certificar-se de que no estava fantasiando. Uma noiva country? A mulher carregava um ramalhete de flores do campo e calava botas de caubi, brancas e de bico fino. Os habitantes de Nova York estavam habituados a ver de tudo pelas ruas, mas aquilo era absolutamente novidade para Flynn.
	Socorro!  ela repetiu para divertimento dos policiais, de duas pessoas que faziam cooper e para uma mendiga, que empurrava um carrinho de mo.  Por favor, ajudem-me!
Ela lembrava uma cantora country rumo ao Grand Olke Opry, onde se casaria com algum imitador annimo de Elvis Presley. At mesmo para Nova York, ela era uma aberrao. Ningum se movia para ajud-la.
Com esforo, ela conseguiu puxar a cauda do vestido, que ficara presa sob as portas da igreja. O vu esvoaante revelava os cabelos loiros e compridos sob o Stetson. Ofegando, encostou-se nas portas, a fim de mant-las fechadas.
	Por favor, algum me ajude!
Os joggers recomearam a correr. Os policiais fingiram no ouvir os gritos.
Com um suspiro de frustrao, a noiva jogou as flores no cho. Pulando sobre um p s, ela descalou uma das botas, colocando-a entre os dois puxadores das portas no momento em que algum tentava abri-las do interior da igreja.
	Hei, voc!  A mendiga chamou-a.  Est louca?
	No  ela respondeu.  Pelo menos, no to louca quanto eles pensam que sou.
A noiva deixou a bota segurando as portas e desceu os degraus da igreja. Tirou o chapu de caubi, olhou de um lado para outro, comeando a agit-lo freneticamente.
	Txi! Txi! Por que nunca se consegue um txi nesta cidade?  gritou.  Txi! Hei, eu... Droga!
Avistou Flynn e correu em sua direo.
	Quem  voc?  perguntou a Flynn.  Um turista motoqueiro?
	Eu que pergunto. Quem  voc?  De imediato, ele admitiu que a resposta no foi nada brilhante.
	Pare com essas perguntas estpidas prprias de ianques  ordenou com irritao, ainda com um p calado e outro descalo.  Tire-me logo daqui! Rpido! Ele vai me matar!
Flynn notou os cabelos dourados como ouro e os olhos mais azuis do que o cu de uma campina. A pele, de to alva, parecia leite. Os lbios deliciosamente vermelhos. Vermelhos demais, talvez. Os seios... AH, os seios ameaavam fazer o vestido explodir a qualquer segundo. Dentro daquele vestido de cetim branco, ela se assemelhava mais a uma esposa assustada de algum trapaceiro barato do que propriamente a uma noiva. O vestido parecia desenhado por um ilustrador de contos .de fadas. Todo brilhante, vaporoso, exagerado.
	Est me ouvindo, doura?  ela indagou, fitando direto
nos olhos de Flynn.  Estou fugindo para no morrer. No comece a me interrogar feito um promotor pblico. Apenas me ajude, ok?
As portas da igreja se abriram. Seis homens fortes, de smoking, desceram os degraus em polvorosa. Um deles apontou para a noiva, gritando:
	L est ela! Peguem-na! Rpido.
. A mulher levantou a saia volumosa do vestido, deixando  mostra as pernas bem torneadas, enfeitadas com as ligas vermelhas.
E um revlver sob uma das ligas.
Pegando a arma, apontou-a para o nariz de Flynn.
	Voc acabou de ser eleito meu Cavaleiro de Armadura Reluzente, doura. Portanto, leve-me em seu cavalo branco.
Vamos, mexa-se!
Flynn apertou os dentes, mantendo-se calmo.
	Esquea.
Ela abriu a boca sensual.
	Eu tenho um revlver.
	Estou vendo.
	O revlver significa que eu estou no comando. Portanto, obedea-me.
	No concordo, madame.
A mulher o encarou, e Flynn ouviu um sinal de alarme em seu crebro. Na verdade, o alarme soava por todo o corpo em pnico. Considerava uma loucura ser ameaado no meio da rua e, ainda, por uma mulher vestida de noiva. No pretendia obedec-la. Simplesmente, no. Nem mesmo sob a ameaa de meia dzia de brutamontes.
O rosto bonito da noiva se contraiu.
	Oua, doura. Vou deixar sua linda cabea marcada por uma bala, se voc no me tirar daqui imediatamente.
	Desculpe. Nada do que voc fizer poder mudar minha deciso.
	Nada, huh? Veremos.
Agarrando-o pela camiseta preta, puxou-o para bem prximo dela. Antes que Flynn percebesse o que estava acontecendo, ela o beijou.
Beijou-o! Os lbios carnudos se apossaram dos dele como se a mulher quisesse deixar suas marcas para reivindicar direitos, reclamar prmios. Os lbios eram quentes, midos, deliciosos. Doces e picantes ao mesmo tempo. Sensuais e brincalhes e, oh, to inebriantes. 0 beijo continha uma carga excitante.
Para Flynn o tempo parou. Loucura! A cidade parecia girar como um carrossel para, de repente, desaparecer num sopro de fumaa. Num timo, todo seu mundo se transformara naquela mulher bonita, com um cheiro maravilhoso, um gosto magistral e que parecia um animal selvagem, pressionando-se contra ele.
Como que sacudido por uma onda poderosa ou uma corrente eltrica, Flynn sentia que toda sua energia fugia de seu corpo, de seu crebro. No conseguia raciocinar. No conseguia se mover.
Mas, tambm, no queria pensar nem se mover. O momento era de magia. Magia negra, talvez. O beijo da noiva atirou-o dentro de um caldeiro de hormnios em ebulio. Esqueceu-se do emprego. Esqueceu-se da misso. Esqueceu-se do prprio nome!
Sexo, pensou. A ideia o atingiu como uma flecha. Era isso o que desejava. Naquele momento. Com ela. Permitir que o beijo durasse para sempre. Permitir que suas bocas permanecessem eternamente unidas. Permitir que suas roupas se evaporassem. Permitir que seus corpos se fundissem num...
De repente, ela se afastou, interrompendo as fantasias de Flynn. Fitou-o diretamente nos olhos, irradiando um poder magntico. O rosto bonito parecia gravado a fogo na mente de Flynn. Os clios, o nariz arrebitado, as sobrancelhas bem delineadas. E a boca... perfeita, deliciosa.
	Ajude-me  ela murmurou.
Flynn no pensou. No houve tempo. Nem necessidade. Ele ganhara um beijo e queria mais. Muitos mais. A razo se autodestrura. O bom senso morrera subitamente.
Os homens de smoking se aproximaram, trocando ordens entre eles. Um deles agarrou o brao da mulher. Ela gritou.
Flynn golpeou-o. Um direto de esquerda que atingiu o queixo do homem, que se estatelou no cho.
O outro homem, maior e mais forte, aplicou um golpe de carat na cabea de Flynn. Lento demais. Flynn desviou instintivamente. Num movimento rpido, segurou o tornozelo do homem, derrubando-o tambm.
	Meu heri!  ela exclamou.
Flynn colocou o capacete, enquanto a mulher, erguendo o vestido de noiva, sentava na garupa da Harley. Ele ligou a moto, saindo em disparada.
Por entre o trfego intenso, ele ouviu o grito de triunfo da mulher:
Yii-ha!
O vu esvoaava pela Quinta Avenida. Os txis des viavam, as buzinas soavam, os pedestres paravam par  observar Flynn abrindo caminho com a possante Harley, enquanto sua passageira agitava freneticamente o chapu de caubi.
	Acelere essa mquina!  ela gritou, tocando a coxa de Flynn com o brao delgado.  Oh, sempre sonhei com homens de roupa de couro preto.
	Voc enlouqueceu?  Flynn indagou, sentindo os lbios ainda queimando pelo calor do beijo da desconhecida.
	Este  o gesto mais equilibrado que fao em semanas, doura. Esta motoneta no anda mais rpido, no?
	Motoneta? Saiba que esta  uma autntica... Eu mesmo a reformei inteira e no permitirei que... Oh, vire este revlver para l!
	Voc chama isto de revlver? Querido, no Texas isto no passa de um brinquedo.
Aquele sbado era um milagre em pleno ms de maio. O cu lmpido, sem nenhuma nuvem, e as ruas de Nova York recm-lavadas pelos resqucios do inverno. Centenas de pessoas passeavam pelas caladas. Parecia que todas riam e apontavam para a Harley de Flynn. Quase no conseguindo dirigir em linha reta, ziguezagueava perigosamente pelo trnsito.
Inclinando a cabea, a mulher sussurrou ao ouvido dele.
	Estou deixando voc nervoso, doura?
	Bem, sim. Est me deixando nervoso, sim.
Em todos os sentidos, Flynn gostaria de acrescentar, ainda sem entender exatamente o que acontecera na porta da igreja. Apenas um beijo transformara seu crebro em gelia.
	Uau!  ela gritou antes de soltar uma gargalhada.Um homem honesto!  Apoiou o queixo no ombro dele.
To perto, que Elynn sentiu a respirao quente em sua orelha.
	Olha, guardo o revlver, se prometer comportar-se.

	Comportar-me? Que diabos est querendo dizer?
	Que voc far apenas o que eu mandar.  Encostou a arma no rosto dele.  Promete?
Gotas de suor surgiram na testa de Flynn.
	Tudo bem, tudo bem. Prometo.
	timo.  Remexeu-se para colocar o revlver na liga. Agora, leve-me para um lugar seguro  ordenou calmamente, com voz aveludada.
	Tenho a impresso de que, com voc por perto, no existe um nico lugar seguro no mundo inteiro.
Ela riu deliciosamente, enlaando-o pela cintura.
	Papai sempre diz isso. Voc  um rapaz muito perceptivo, doura. Para um ianque,  perceptivo at demais.
A percepo de Flynn estava trabalhando a todo vapor, estimulada pelos braos dela em sua cintura. Podia sentir a curva dos seios em suas costas, e, apesar do capacete, o perfume suave inebriava suas narinas. Os corpos amoldavam-se naturalmente no momento em que se inclinavam para dobrar uma esquina. O que estava acontecendo?
Se Flynn no sentisse o corpo da mulher contra o seu, at diria que aquela cena no era real. Alguma coisa acontecera. Algo divertido e, ao mesmo tempo, terrvel. Flytin nunca cometera uma falta em servio. Entretanto, l estava ele, agindo como um manaco. Tudo por causa de um beijo. Pior. Estava participando de um espetculo pblico. O vu esvoaante, o vestido exuberante, o chapu de caubi, os cabelos dourados atraam olhares curiosos. Flynn percebia as cabeas se voltando para observ-los. Porm, precisava confiar no bom senso para formar uma opinio sobre a mulher. O sotaque texano e o riso fcil denotavam atrevimento ou inconsequncia, mas Flynn podia sentir as batidas aceleradas do corao dela. O tremor das mos em sua cintura parecia causado por algo mais do que o trepidar do motor da moto.
Todavia, suas atitudes escondiam muito bem o nervosismo.
	Voc est em plena operao de resgate, doura. Por tanto, v em frente e tire-me daqui.
	Para onde voc quer ir?  Flynn acelerou, esperanoso de que ela declarasse o desejo de ir para a cama mais prxima... com ele. Porm, com a mente comeando a voltar ao normal, sugeriu:  Aeroporto? Grand Hotel?
	Cus! Claro que no! Nada de tumulto, doura.
	Voc no gosta de tumulto?  ele zombou. 
	Preciso de um lugar tranquilo, onde ningum me reconhea.
	Por qu? Quem  voc?
	Por qu?  ela repetiu, visivelmente surpresa.  Eu sou Dixie Davis.
	Quem?
Ela inclinou a cabea, quase roando no rosto dele.
	Dixie Davis.  O tom de voz enfatizava o nome.  Doura, se voc no ouviu falar de mim, ento, deve ser o nico homem em Nova York que nunca viu minhas fotos em jornais e revistas.
Escapando do trfego, Flynn buscou o sossego da rua East Side. Estacionou a moto entre dois automveis e desligou o motor. Tirou o capacete para examinar melhor sua passageira.
Ela sorriu, jogou a cabea para trs e abriu os braos, como uma figura de algum show grotesco.
	E, ento?  perguntou. Os olhos azuis faiscavam. Reconhece alguma coisa em mim?
O decote do vestido de noiva revelava a perfeita simetria dos seios. Homem algum poderia afirmar que no reconhecia aquelas formas famosas. Depois de avaliar o sorriso malicioso e o olhar atrevido, Flynn concluiu que estava diante da obra original.
	No acredito  confessou.  Voc ...
	Finalmente, voc est me valorizando!
	Voc ...
	Sim.  Ela ergueu o queixo, exibindo o perfil famoso.  Dixie Davis, que sacudiu Nova York. O Furaco do Texas, para ser mais exata. Bem, admito que estou um pouco decepcionada por voc demorar tanto para me reconhecer. Meu agente diz que, no momento, sou muito mais conhecida do que Maria Maples!
As peas comeam a se encaixar.
Dixie Davis era a mulher mais sensual da face da terra. At mesmo o New York Times reconhecia isso.
E, de repente, l estava a festejadssima srta. Davis na garupa de sua moto, com a mesma naturalidade com que montava cavalos pelos campos do Texas. Nas ltimas semanas, era impossvel no ver as fotos de Dixie Davis estampadas nas primeiras pginas dos tablides e das revistas de Nova York. At um ms antes, ela era apenas mais uma bailarina desconhecida, vinda de Podunk, Texas. Desembarcara em Nova York para danar no show inexpressivo The Flatfoot and the Floozie. Poucos dias depois, foi elevada  categoria de estrela pelo produtor apaixonado, Joey Tor-rano, um dos gngsteres mais notrios da cidade.
Como Joey Torrano poderia no se apaixonar por Dixie Davis? Ela usava e abusava do sex appeal com a mesma facilidade com que a maioria das mulheres costumava usar perfume. Era mais sensual do que a combinao champanhe, chocolate e lenis de cetim. Em tudo nela lia-se female, escrito com letras enormes de non. At mesmo os colunistas mais conservadores e radicais no conseguiam evitar de escrever a respeito dela.
Os tablides nova-iorquinos adoravam uma aventureira sexy, tanto quanto adoravam um gngster. E, por acaso, essa histria tinha ambos, de modo que, Dixie Davis virara notcia em toda cidade de Nova York. O que deveria ser mais um show inexpressivo da Broadway, de repente, transformara-se em sucesso de bilheteria, graas  publicidade provocada por uma corista bem-dotada.
	Dixie Davis  ele murmurou, imaginando quantos homens no planeta dariam tudo para estar no lugar dele para ver de perto, nem que fosse apenas por um segundo, o Furaco do Texas.
Ela era tudo o que clamavam. Tudo e muito mais. Seu beijo de alta voltagem ainda ardia na memria de Flynn. Dixie era um verdadeiro monumento de mulher. Uma bomba atmica loira, um misto de Marilyn Monroe e Dolly Parton. Um smbolo sexual americano com corao de ouro.
	Uau!  Foi como Flynn conseguiu expressar sua surpresa.
	Sou eu mesma.  Presenteou-o com um sorriso maravilhoso.  Quer um autgrafo?
	No, obrigado.  Os sentidos de Flynn retomavam suas funes rapidamente.  O que eu quero  que saia da minha moto.
	O... o qu?
	Depressa!  ele acrescentou, descendo da Harley.  No quero acabar no fundo do rio, dormindo com os peixes apenas porque me escolheu para o papel de Sir Galahad. Vamos, movimente esse corpo texano e procure um txi, madame.
	O qu? Essa motoneta ridcula  mais importante do que a vida de um ser humano?
	Esta no  uma motoneta.  uma Harley-Davidson!
E no vou arriscar minha vida por voc.
Dixie endireitou-se na garupa. Fitou-o com a sobrancelha erguida.
	Est com medo?
	Pode apostar que sim. Seu namorado  o gngster Joey Torrano!
	E da?
	Da que suponho ser ele o noivo que voc deixou em p no altar.
	Ele no estava em p  disse de um modo afetado.  Isto , estava antes de t-lo nocauteado.
	Voc...
Em um dos braos, ela segurava a enorme cauda do vestido de noiva. Num gesto estudado, cruzou as pernas bem torneadas, comeando a balanar o p descalo.
	Bem, nas verdade, no tive muita escolha. Ele estava bloqueando minha nica sada. E eu precisava sair dali antes que fosse tarde demais.
	Um momento.  Flynn ergueu os braos.  Corrija-me se eu estiver errado. As noivas no costumam sair da igreja depois do sim?
	Conclu que hoje eu no queria casar com ningum.
Flynn conteve-se para no acariciar a perna e o p que ela, provocantemente, exibia.
	Porm, sua deciso desagradou o noivo.
	Acertou. Joey pode ser... digamos, muito desagradvel quando algo o desagrada.  Dixie riu.
	J ouvi comentrios a respeito.
	Ento, decidi agir a minha maneira, doura.
Flynn percebeu uma ponta de angstia sob o sorriso largo.
	E agora?
	Gostaria de ir para algum lugar sossegado, por favor.
	Vou lhe dar dinheiro para o txi.  Flynn colocou a mo no bolso das calas.
	Dinheiro para o txi! Que espcie de Sir Galahad  voc?
	Da espcie que brinca em segurana.
Ela no escondeu a indignao.
	Ah! Homens de Nova York! No entendo como podem ser geneticamente iguais aos colegas texanos! Vocs so um bando de carneirinhos nervosos com medo de se arriscarem e indiferentes aos sentimentos de uma dama!
Ela era imprevisvel. Num minuto, coquete. No outro, capaz da mais dura advertncia. Parecia que uma fogueira crescia dentro dela. O brilho intenso dos olhos azuis exercia um poder incrvel sobre Flynn.
O bom senso aconselhava-o a tem-la. Dixie era uma mulher capaz de causar graves problemas.
	Voc est apavorado, no?
	Se voc tivesse crebro, tambm deveria estar.
	Est me chamando de burra?
	Para ser educado, digo que voc  impulsiva.
Dixie Davis sensibilizou-se com a preocupao estampada no rosto de Flynn. Talvez ele estivesse certo. Nos ltimos tempos, seus impulsos a levavam de uma confuso para outra.
Em pouco mais de um ms, uma srie de acontecimentos confusos e excitantes haviam mudado completamente sua vida. Tudo comeara com uma pequena participao no show The Flatfoot and the Floozie. Depois, durante um ensaio, conhecera Joey Torrano. A partir da, tudo aconteceu to rpido que Dixie quase perdera o controle da situao.
Sentira-se empolgada com Joey, com o show, com o sucesso. At o momento em que se viu no altar ao lado de um homem de quem nem mesmo gostava muito.
 Talvez eu seja impulsiva  admitiu.  Porm, no poderia me casar com ele. Por todas as razes do mundo. Por isso, preferi fugir antes que as coisas se complicassem mais. Voc nunca se sentiu assim?
Flynn a fitou por um longo momento com o olhar distante.
	Sim, j me senti assim  murmurou.
	Agora, no sei o que fazer, nem o que pensar  Dixie falou com voz pausada.  Preciso de um tempo.
	Bem, no podemos ficar aqui  Sir Galahad -se pronunciou, de repente, agindo como se acordasse de um sonho.
 As pessoas esto comeando a notar nossa presena.
Dixie olhou ao redor, percebendo alguns moradores da rua, debruados nas janelas, observando-os. Uma mulher falando ao telefone sem fio apontava para ela, como se tivesse descoberto a rainha da Inglaterra sob sua janela.
	Uh-oh  Dixie resmungou.  Em cinco minutos, haver uma dzia de fotgrafos brigando por minhas fotos.
	Pelas minhas tambm.  Flynn apressou-se em colocar o capacete.  Vamos embora.  Subiu na moto, ligando-a. Quando sentiu as mos de Dixie em sua cintura, perguntou:  Pronta?
	Pronta!
Enquanto Flynn dirigia pelas ruas movimentadas, Dixie pensava.
"Cuidado! No v se jogar nas mos de outro homem", advertia-se mentalmente. Prometeu a si mesma que no permitiria que esse motoqueiro controlasse sua vida como Joey fizera.
Claro, esse rapaz no agiria como Joey. Era mais jovem, talvez trinta e cinco anos, e possua um rosto suave sob a expresso severa que fazia questo de manter. Era bonito e lacnico. Um Gary Cooper remoado. Com mais cabelos. Imaginava que fosse mecnico, considerando a venerao por aquela motoneta ridcula.
Dixie notara o brilho de compaixo nos olhos negros. Quando sara da igreja, ele fora a nica pessoa que lhe dera ateno.
No a abandonara no meio da rua, quando pedira ajuda. At mesmo desferira um golpe certeiro no queixo de George. George, que se autodenominara como o invencvel guarda-costas de Joey Torrano. O motoqueiro nocauteara George sem a mnima hesitao. O outro guarda-costas tambm no fora preo para Sir Galahad.
Era um rapaz de bons instintos, ela concluiu. E um corao generoso. At mesmo quando queria parecer mau. Para um simples mecnico, at que ele ra bem cavalheiro. Essa constatao encorajou Dixie.
	Uma pergunta, doura. Qual  seu nome?
Ele levantou a cabea, para que o vento no carregasse sua voz.
	Flynn.
 Flynn do qu?
	Apenas Flynn.
Ela riu.
	Que espcie de homem tem apenas um nome?

	Agora j so duas perguntas.  Ele revelou seu lado bem-humorado.
	Guardando segredos, doura?
	Posso fazer uma pergunta?
	Ok. Pode mandar.
	Por que voc me beijou?

CAPITULO II

Dixie demorou alguns segundos para responder  pergunta de Flynn.
	Oh, doura, estou to envergonhada!
Ela no queria explicar. Como poderia explicar o poder do beijo de Butterfield? Comeara com a bisav da av But-terfeld, passando atravs das geraes direto para a prpria Dixie. Durante toda a vida fora prevenida contra o uso abusivo desse dom. De nada adiantava lastimar-se.
	Sinto muito mesmo, doura.
Estava sendo sincera. Dixie precisaria conhecer Flynn melhor antes de explicar-se. Naquele momento, ele no entenderia nada.
	Mais tarde, conversaremos sobre isso, ok?  ela sugeriu.  Agora, leve-me ao Plaza.
	Ao Plaza?  Flynn repetiu. . Voc no est em seu juzo perfeito.
	Por enquanto,  o lugar mais seguro. Acredite em mim.
	Pensei que voc quisesse ficar longe de Joey Torrano, no cair diretamente no quarto dele.
	 meu quarto. No dele.
	Acha que conseguir impedi-lo de mandar seus homens atrs de voc?
	Confie em mim, doura.  o melhor lugar, por enquanto.
Flynn abriu a boca para contestar, mas mudou de ideia. Acelerando, pegou o caminho do Plaza Hotel, onde Dixie se hospedava.
O hotel surgiu majestoso no extremo sul do Central Park. Em frente  entrada principal, algumas charretes esperavam pelos turistas. Parado nos degraus, um porteiro apressava-se a abrir as portas das limusines e dos txis que traziam os hspedes. Ele comandava uma equipe de hoys que carregava a bagagem valiosa desses hspedes.
Quando Dixie chegara a Nova York, tudo isso lhe parecera cena de algum filme. Depois do sucesso, porm, aceitava esses rituais como parte de sua nova vida.
Uma vida que ela deveria deixar para trs.
Desde cedo, Dixie fora festejada por sua beleza. Tivera aulas de bale e muitas horas de treinamento na Creek Hair Boutique, de sua tia Lucy. Aos quatro anos, vencera seu primeiro concurso de beleza. Fora eleita Dairy Princess, Fire Queen e Miss Teen Texas.
E, finalmente, l estava ela em Nova York, rodeada de jornalistas, fs e com um show de sucesso na Broadway. As pessoas enviavam-lhe flores, doces e propostas de casamento.
Dixie no estava preparada para o sucesso.
"Vou voltar para o Texas o mais rpido possvel", prometeu a si mesma.
Antes, porm, havia assuntos pendentes para resolver.
Segurou-se com mais fora em Flynn, quando a moto inclinou-se para entrar no Plaza. O porteiro tremeu quando Flynn estacionou junto aos degraus da entrada principal.
	Olhe, no me sinto  vontade num lugar como este	comentou com Dixie.
	Nem eu, doura  Dixie respondeu, descendo da moto. Mas,  divertido descobrir com que facilidade nos acostumamos ao luxo e s mordomias. Vamos.
	Para onde?
Encarou-o, determinada a ficar um pouco mais ao lado dele.
Pela primeira vez, desde que chegara a Nova York, Dixie sentia que encontrara algum que no gostaria de perder to cedo.
E, tambm, pela primeira vez em muito tempo, agia com sinceridade.
	Preciso de sua ajuda. Entre comigo.
Flynn mostrava-se perplexo.
	Por qu?
O porteiro aproximou-se.
	Boa tarde, srta. Davis. No a espervamos to cedo.
	Oh, al, Barney. Uh... estou preparando uma surpresa para Joey.  Sorriu divinamente, enlaando o brao do porteiro.  Voc vai colaborar comigo, no?
Um sorriso de cumplicidade iluminou o rosto de Barney. Ele tambm se rendera aos encantos de Dixie.
	Claro, srta. Davis. Imaginei mesmo que fosse uma espcie de trote.  Apontou para a moto.  A senhorita no costuma andar assim.
Ofendido, Flynn tirou o capacete. Rapidamente, Dixie interveio, impedindo-o de falar.
	E isso mesmo, Barney. Um trote. Mas, boca fechada, ok?  Com a unha esmaltada, roou a ponta do nariz do porteiro.
Barney olhou-a com adorao.
	Ok, srta. Davis.
Barney se afastou com ares de um heri conquistador. Dixie, ento, agarrou o brao de Flynn.
	Venha comigo. S por alguns minutos, por favor.
Ele lanou um olhar na direo do porteiro.
	Oua, srta. Davis...
	Por favor. Precisarei de ajuda com minha bagagem ou com a polcia.
	Polcia?  repetiu, sentindo um tremor percorrer-lhe o corpo.
	Oh, no fique apavorado. H semanas esto tentando entrar na minha sute. E, hoje, no estou com disposio para receb-los. Voc pode ficar parado na porta com um jeito de perigoso. No ser to difcil assim, doura.
Ele hesitou.
	O que a polcia est procurando?
	Evidncias de culpa, imagino.  Dixie respirou fundo.  Joey no  exatamente um anjo, voc sabe. Por isso, esto tentando vasculhar minha sute. Oh, vamos. S alguns minutos, doura. Voc no pode bancar Sir Galahad um pouco mais?
Flynn ponderou a situao, lutando com seus pensamentos. Depois concordou com relutncia.
	Tudo bem. S por alguns minutos.
	Maravilha!
Impulsivamente, Dixie beijou-o na face. No conseguiu se conter. Ele era adorvel. Realmente, adorvel. Dixie sabia que no deveria distribuir a esmo seus potentes beijos Butterfield, mas, no resistira. Desde que chegara a Nova York, esse era o primeiro homem sensual que conhecera. Bonito, simptico e deliciosamente consciente da aparncia extravagante da grande Dixie Davis.
Flynn reagia a seu beijo como se fora picado por uma abelha. Essa reao provocou-lhe risos.
	Doura, acho que voc est esforando-se demais para bancar o rapaz duro.
A risada de Dixie o irritou. Gostava dos beijos dela, sim, mas, de repente, desconfiou que algo em Dixie Davis soava um tanto perigoso.
Segurou-o pela mo.
	Vamos, doura.
O toque de sua mo era quase to eltrico quanto o beijo.
	E minha moto?
	O que tem sua moto?

	No posso deix-la aqui.
Dixie riu novamente.
	No?
O sangue de Flynn comeou a esquentar.
	 uma mquina muito valiosa.
	Claro! Sei disso  ela respondeu, obviamente no acreditando. Virou-se para chamar o porteiro.  Barney cuidar dela. Principalmente se lhe der uma boa gorjeta.
	Barney!
Flynn sentiu-se em pnico.
	O que considera uma boa gorjeta?
	Joey costuma dar-lhe cem dlares.
Ele arregalou os olhos. No tinha mais do que vinte dlares no bolso! Importncia suficiente para um lanche e gasolina para a Harley.
	Mas...
Tarde demais. Dixie j usava de seu charme para convencer o porteiro. Em seguida, pegando novamente a mo de Flynn, conduziu-o para dentro do Plaza Hotel.
Ele j estivera em hotis de luxo. Muitas vezes. Nunca como hspede, mas, como policial, era obrigado a entrar em todos os tipos de lugares. Bons e maus.
Porm, nunca entrara no Plaza Hotel na companhia de Dixie Davis.
Todos no saguo pararam o que quer que estavam fazendo para ver o Furaco do Texas. O recepcionista inclinou-se no balco para cumpriment-la. As garotas do setor de reservas desviaram os olhos da tela do computador e acenaram para a hspede mais famosa. Os turistas se voltavam, sorrindo. Alguns at aplaudiam.
Dixie ria, tirando o chapu. Depois acenava para os admiradores como uma rainha de beleza, desfilando pela Main Street. Caminhava com a cabea levemente erguida, e Flynn percebeu que Dixie recorria a esse ar de afetao para escapar dos autgrafos.
Escoltada por Flynn, ela chegou at o elevador mais prximo. Entraram antes que uma pequena multido de ias os alcanasse. Dixie fechou a porta com uma chave de segurana, que tirara de dentro do corpete do vestido de noiva.
	Whew!  Ela comeou a abanar-se com o chapu.
 E sempre assim em todos os lugares?
	Em todos os lugares  Dixie concordou.  Menos quando no sou Dixie Davis.
	Como assim?
	Voc ver.
O elevador parou num dos andares, e, em questo de segundos, Flynn viu-se numa sute luxuosa, digna de reis e rainhas. Paredes brancas, mveis brancos, carpete branco, cortinas brancas e janelas com uma vista espetacular do Central Park. Por todos os cantos, havia flores, ramalhetes, cestas, vasos, todos com cartes de fs e admiradores.
Na sala de estar, um pster tamanho natural de Dixie Davis. A roupa azul, vermelha e branca de cowgirl mal cobria a plstica escultural. Os cabelos loiros estavam soltos. Usava botas brancas e um revlver prateado. Colocado bem no meio da sala, diante da mesa de caf, parecia um altar dedicado  beleza daquela deusa sensual. Dixie largou o Stetson sobre o sof.
	Sinta-se em casa, doura.
	Srta. Davis...
	Dixie, por favor. Deixe-me tirar esta roupa. Depois conversaremos, ok?
	Mas...
	Se baterem na porta, no abra para ningum. Exceto para Maurice.
	Quem  Maurice?
	O camareiro. Ele estar aqui em um minuto. Pode apostar.
Ela entrou no quarto, deixando a porta entreaberta. Pelo rudo, Flynn imaginou que ela tirava o vestido de noiva. Dixie continuava falando:
	Maurice  super preocupado. Joey recomendou-lhe que cuidasse de mim, e Maurice entendeu como uma espcie de ameaa. Bem, ele simplesmente entra em pnico quando mudo meus planos. Pobre Maurice, sofrer um colapso quando souber que fugi da igreja.
	A culpa no  dele.
	Claro que no. Mas, ele tem medo de Joey. No sei por que. Joey  um biehinho de pelcia.
Flynn rememorou o que sabia a respeito de Joey Torrano. Nada no passado do gngstr o classificava como um bichinho de pelcia. Talvez um bichinho selvagem. Uma pessoa vingativa que tinha o pssimo hbito de fazer desaparecer as pessoas que sabiam demais.
	Fique  vontade  Dixie gritou.  Sente-se e relaxe. Sirva-se de um drink. No demoro.
Mais para desviar sua imaginao do fato de Dixie estar se despindo, Flynn decidiu andar pela sala, para ver o que aprendia sobre a estrela. Afinal, durante semanas, a polcia tentava em vo entrar naquela sute para apurar um motivo que ajudasse a incriminar Joey Torrano. E, uma vez convidado pela prpria namorada do gngster, no poderia perder a oportunidade de procurar por alguma prova contundente.
Estudou a sute minuciosamente. No canto da sala, havia um piano branco e inmeras partituras com anotaes  mo. No encosto de uma cadeira, uma blusa preta. No cho, um par de sapatos de salto alto. Instintivamente, Flynn pegou a blusa. Examinou-a, tentando adivinhar como uma pea to pequena conseguia cobrir as curvas voluptuosas de Dixie.
Lembrando-se da misso que auto designara-se, continuou a busca. Havia alguns jornais e revistas espalhados sobre a mesa. Usando o controle remoto, ligou a televiso. Descobriu que Dixie ou Joey assistia  CNN, em vez de variedades ou novelas.
A kitchenette ficava anexa  sala de estar. Abrindo a geladeira, encontrou bandejas com comida chinesa, iogurte, mas, cenouras e latas de cerveja mexicana. Por tudo o que j lera, Flynn sabia que a bebida predileta dos gngs-teres era vodca. Com certeza, a cerveja era para Dixie.
Novamente, Flynn deu vazo s suas fantasias. Imaginou uma garota loira, de biquini, dividindo a lata de cerveja gelada com um policial. Desde o momento do beijo, Flynn estava excitado. At ento, nenhuma mulher conseguira afe-t-lo tanto. Perguntava-se se todos os homens reagiam da mesma maneira diante do Furaco do Texas.
Uma leve batida na porta interrompeu suas divagaes. Flynn fechou a porta da geladeira.
	Veja quem , doura  Dixie pediu.  No acho minha camiseta.
A imagem de Dixie s de calcinha e suti quase o enlouqueceu. Correu para recepcionar o visitante.  Quem ?  perguntou, ainda com a porta fechada.
	Maurice. A srta. Davis est desocupada?
Flynn abriu a porta. O camareiro entrou assustado.
	Oh, srta. Dixie, estou terrivelmente... Oh! Onde est a srta. Davis?
	Trocando de roupa  Flynn informou-o.
	Quem  voc?
Aps uma breve pausa, Flynn mentiu:
	O guarda-costas da srta. Davis.
Essa pareceu uma explicao lgica para o camareiro.
	Entendo. A srta. Davis est bem?
	Sairei num minuto, Maurice  ela respondeu.
Maurice correu at a porta do quarto.
	Oh, srta. Davis, sinto muito, mas a sute nupcial ainda no est pronta. Espervamos que voltassem bem mais tarde.
	Calma, Maurice.
A porta do quarto foi aberta, dando passagem para outra mulher.
Mais bonita at que aquela Dixie Davis alta, magra, com alegres olhos azuis e um sorriso largo, atrevido. No usava maquilagem exagerada, nem roupas como personagens da Disneylandia. Desaparecera a garota extravagante. Em seu lugar, surgira uma jovem com rosto lavado, roupas simples e sorriso suave. Com os ps descalos, jeans e camiseta, sua aparncia era encantadoramente ingnua.
Os cabelos eram loiros, curtos e ressaltavam as linhas do queixo e do nariz. Trazia na mo uma peruca loira de cabelos compridos.
Flynn piscava para certificar-se de que a mulher era Dixie Davis sem a marca registrada dos cabelos longos, roupas excntricas e maquilagem pesada. Ela jogou a peruca sobre o sof, ao lado do chapu. Flynn perdera a fala. A transformao era espantosa.
Dixie segurou o brao trmulo do camareiro.
	No se preocupe com nada, Maurice. Apenas preparei uma surpresa para Joey.
	Uma... uma surpresa?
	Isso mesmo. E voc vai me ajudar, no vai?
	Bem, eu... eu... Isso no causar problemas a mim ou ao hotel, no?
	Claro que no!  Ela riu.  Acha que eu o prejudicaria, Maurice?
	A senhorita no, mas o sr. Torrano ...
	Deixe Joey por minha conta.  Acariciou o brao dele.
	A senhorita est indo para a sute nupcial?  Maurice perguntou ainda nervoso.
Com um sorriso envolvente, Dixie negou com um movimento de cabea.
	Ainda no. Prefiro ficar aqui mesmo, sem que Joey saiba. Apenas por alguns dias, entendeu?
Um sorriso se abriu na face suada do camareiro.
	Claro, srta. Davis.
	Voc no vai contar nada a Joey, no  mesmo? No gostaria de estragar a surpresa.
	Avisarei a segurana imediatamente.  O homem inclinou-se para beijar a mo de Dixie.  Pode contar com o Plaza, srta. Davis.
Dixie sorriu, revelando covinhas nas faces.
	Voc  maravilhoso, Maurice. Obrigada.  Conduziu-o at a porta da sute.  Agora, mantenha-se calmo. No se preocupe com mais nada. Logo, no estarei mais aqui para preocup-lo, doura.
	Oh, poder ficar pelo tempo que quiser, srta. Davis.
	Isso  o que chamo de cordialidade, Maurice.
Assim que o camareiro saiu, Dixie fechou a porta e comentou com um suspiro.
	Ele mudar o discurso assim que Joey parar de pagar minha conta.
Flynn cruzou os braos.
	Srta. Davis, creio que me deve algumas explicaes.
No estou entendendo nada desta histria. Talvez seja melhor eu ir embora.
	No! Por favor, no v.
	Preciso trabalhar.
	Voc no pode tirar alguns dias de licena da garagem? ele perguntou, caminhando at a cozinha.
Flynn a seguiu.
	Garagem?
	Onde voc conserta suas motos. Por que no pede suas frias?
	Para qu?
	Tenho uma proposta para voc.
De imediato, a imaginao frtil de Flynn considerou todas as espcies de propostas. E todas as possibilidades incluam um cenrio que exigia que tirassem as roupas. Flynn tinha uma ideia de como seria Dixie despida, mas ansiava por saber a tonalidade dos mamilos, a textura da pele, a maciez dos cabelos. Queria ouvi-la murmurar palavras sem nexo com voz enrouquecida pelo desejo. Podia at sentir o corpo curvilneo tremendo e ardendo nos pensamentos que povoavam sua mente.
Sem sequer imaginar as fantasias sexuais de Flynn, ela abriu a geladeira, de onde tirou duas mas. Com gesto calmo, ofereceu-lhe uma das frutas.
	Gostaria que voc me ajudasse.
A ltima coisa na qual pensava era no estmago. Mesmo assim, automaticamente, aceitou a ma.
	Como?
Dixie friccionou a ma na camiseta.
	Ouvi voc dizer a Maurice que era meu guarda-costas.
	Precisava justificar minha presena.
Ela mordeu a fruta e enquanto mastigava, avaliou-o atentamente.
	Est interessado no emprego?
	Que emprego?
	De meu guarda-costas.  Voltou para a sala de estar. 	Preciso de proteo. No que eu corra risco de vida, mas acho que seria bom saber que h algum por perto se precisar de... bem, de uma testemunha ou qualquer coisa assim.
	Voc quer algum para bater em seu namorado, se ele aparecer  Flynn arriscou.
	Cus, no! Embora eu esteja muito impressionada com o modo que tirou George de nosso caminho.  Dixie sentou-se no sof, cruzando as longas pernas em estilo hindu.
	Joey no  um homem violento. Mas, s vezes, perde o controle.
	O que acontece nessas ocasies?
	Ele grita um bocado!  admitiu, olhando para a ma. 	Detesto gritos, de modo que prefiro evitar discusses. Quero algum a meu lado por poucos dias, at resolver alguns negcios.
	Que tipo de negcios?
	Negcios de teatro. No se preocupe.
Porm, Flynn estava preocupado. Como policial, jamais teria uma chance melhor para se aproximar de Joey Torrano. H dois anos, o Setor de Crime Organizado tentava reunir provas contra o terrvel e poderoso chefao Torrano, mas nada que chegara s mos da polcia fora suficientemente concreto para incrimin-lo. At aquele momento.
Entretanto, olhando para Dixie sentada no sof, comendo a ma, Flynn concluiu que seria preciso um homem muito mais forte do que ele, capaz de resistir aos encantos da deusa pelo tempo suficiente at descobrir uma prova definitiva contra o namorado gngster.
Dixie o fitou. Os olhos azuis pareciam infinitamente profundos, enquanto esperavam pela resposta de Flynn. Os lbios continham a umidade da fruta. Os cabelos loiros caam delicadamente na fronte. Flynn conteve-se para no acarici-los.
	O que me diz?  Dixie indagou, interrompendo os pensamentos dele.  Posso pagar... oh, cem dlares por dia. Mais as despesas, desde que no escolha restaurantes caros. Que acha?
Flynn no confiava na prpria voz. Pigarreou antes de responder.
	Voc no sabe nada a meu respeito.
Ela sorriu.
	Sou rpida no julgamento do carter das pessoas.
	Rapidez no significa acerto. Talvez, eu seja seu pior inimigo.
	Nunca beijo meu pior inimigo  Dixie rebateu.  E meu pior inimigo no me beija como voc m beijou.
A boca de Flynn secara completamente.
	Srta. Davis...
	Tenho algumas regras sobre os homens. No permito que cheguem to perto de mim. Sei muito bem que aparento ser uma garota fcil, sem escrpulos, certo?
	No, no est certo.
Dixie passou a mo pelos cabelos curtos.
	Na maior parte do tempo, pareo um carro alegrico no meio da avenida. Porm, tudo no passa de encenao. E o show business. Apesar disso, aprendi a no confiar nos homens. Os homens me vem toda embonecada e no  difcil imaginar o que esto buscando exatamente. Voc  diferente.
	No to diferente, talvez  Flynn comentou em voz baixa, pensando nas fantasias erticas que j vivera.
Dixie riu.
	Ah,  diferente, sim. Quando o vi com sua moto, perto da igreja, havia um brilho em seu olhar... Sonhador, distante, mas absolutamente confivel.
	Acredite-me, srta. Davis. No sou nenhum escoteiro.
	Vamos colocar as coisas da seguinte maneira. Voc me inspira confiana. Hoje voc se comportou como a pessoa indicada para o cargo. Por que no ficar mais alguns dias comigo?
	Quanto tempo?
	Dois ou trs dias.  tudo o que preciso para resolver alguns assuntos. Voc pode ficar aqui e dormir no sof. Por favor.
O sorriso ingnuo fez o corao de Flynn disparar. Com os cabelos curtos e o rosto sem maquilagem, Dixie era mais atraente do que a mulher que o beijara na rua. Mais sensual, mais bonita, mais meiga.
Flynn refletiu por alguns momentos antes de responder:
	Preciso dar um telefonema, antes. Em particular.
	Claro!  Ela levantou-se, enlaando-o pelos ombros.  Oh, Flynn, estou muito feliz.
Ele vibrou com aquela proximidade. O corpo gil e curvilneo, o perfume suave e inebriante. Tudo era provocao. Inesperadamente, Dixie o beijou no rosto.
	Obrigada.
Depois, ela correu para o quarto. Fechou a porta, deixando Flynn surpreso e trmulo. Ele esperou at que a presso sangunea voltasse ao normal, antes de entrar em contato com seu oficial superior.
Telefonou para o sargento Dominick Kello, que chefiava as investigaes das atividades de Joey Torrano dentro do Setor de Crime Organizado, do N.Y.P.D. Flynn explicou-lhe a situao.
O sargento Kello mal acreditava no golpe de sorte.
	Esta  a primeira boa notcia em meses de trabalho!
	No tenho tanta certeza. E se eu puser o caso a perder?
	Caso? No temos um caso! Talvez, voc finalmente descubra alguma coisa til.
	Mas, ela me parece inocente...
	Maravilha!  O sargento exclamou, no ouvindo o que Flynn comeara a dizer.
Kello cobriu o fone, espalhando a notcia para os compa-j nheiros. Flynn pde ouvir as vozes excitadas dos colegas policiais. Depois de alguns segundos, o sargento voltou  linha.
	Aproxime-se o mais que puder, Flynn. Seja seu guarda-costas, seu motorista, seu camareiro, troque at as roupas da garota, se for preciso!
	At que no  m ideia.
	 uma ideia magnfica, isto sim.
	Por que est to tenso, Flynn?
	Porque ela est...
	Oua, Flynn  novamente o sargento o interrompeu.  Tudo o que voc tem a fazer  grudar-se nessa mulher bonita dia e noite.
"Uma mulher bonita, atraente e sensual", Flynn pensou, contraindo os maxilares. O sargento Kello no tinha a mnima ideia do quanto uma misso to simples poderia tornar-se extremamente difcil e complicada ao lado de Dixie Davis.
	Fique perto da garota  o chefe ordenou.  Faa o que achar necessrio para descobrir as informaes que incriminem Torrano. Entendeu, Flynn? Faa o que julgar necessrio!

CAPITULO III

Dixie saiu do quarto usando a peruca loira novamente. Calara um par de botas vermelhas de caubi. No ombro, uma mochila e no alto da cabea, extravagantes culos de sol.
Flynn deixou de lado o jornal que fingia ler, depois de ter vasculhado a sala de estar.
	Onde vamos?  ele quis saber.
	Ao teatro, claro.
Ele pulou da cadeira.
	O... Onde?
	Ao teatro! Esqueceu que tenho show esta noite?
	Show? Esta deveria ser sua noite de npcias!
	Sou a estrela de The Flatfoot and the Floozie  lembrou-o com simplicidade.  Fao sete apresentaes por semana, incluindo matin s quartas e sbados. A menos que esteja morrendo, no falto por nada.
	Mas... mas...  Flynn pegou-se balbuciando de preocupao.  Pensei que quisesse esconder-se de Joey Tor
rano! Como conseguir esconder-se num palco da Broadway?
	Isso  problema seu!  ela brincou entre risos.  Voc  o meu novo guarda-costas, esqueceu?
	Voc no pode... No acredito...
Dixie passou por ele, balanando a cabeleira loira. Flynn correu para abrir-lhe a porta. Ela parou diante do espelho do pequeno hall, dando uma ltima olhada na aparncia. Sua imagem era suficiente para derrubar um gigante!
Fingiu puxar um clio imaginrio e, pelo espelho, encontrou o olhar arregalado de Flynn. Sorriu.
	E, ento? Como estou?
	Voc no vai passar despercebida entre os hspedes do hotel.
	Um cumprimento?  Saiu da sute direto para o elevador.
	Uma constatao.
	Obrigada. No se preocupe. Um txi nos espera na alameda que d para a cozinha do hotel. Ningum nos ver sair. Vem. comigo?
	 meu novo emprego, no?
	Sim... se ainda o quiser.
	Apenas no creio que seja uma boa ideia ficar andando pela cidade.
	As pessoas contam comigo. Todos os ingressos para o show desta noite foram vendidos antecipadamente.
	Voc no tem substituta?
	Eu sou a substituta!  esclareceu.  Joey trocou a estrela original por mim. No tivemos tempo para preparar outra garota. No posso faltar.
	Essa  uma maneira muito louca de evitar o homem que voc deixou esperando no altar, ainda h pouco.
	No poderei evit-lo para sempre. Porm, tentarei at acertar algumas coisas no teatro.  O elevador parou no subsolo.  Pronto?
Desceram no meio da ampla cozinha do hotel. Ocupado demais com as tarefas, o pessoal no se deu por conta dos dois estranhos. Quando j estavam prximos  porta, algum gritou e, de repente, todos correram em busca de autgrafos.
Flynn conteve os admiradores, enquanto Dixie saa acenando e sorrindo. Um minuto depois, estavam dentro do txi.
	Hey, Jerry  Dixie cumprimentou o motorista. Obrigada por ter vindo.
	Ainda no falhei nenhuma noite, srta. Davis. Nem pretendo falhar. Quem  o tira?
Flynn estremeceu. Se queria obter confidncias de Dixie Davis, seria absolutamente necessrio manter sua verdadeira identidade em segredo.
Dixie soltou uma gargalhada.
	Ele no  um tira.  o meu novo guarda-costas. Flynn, quero apresentar-lhe Jerry. Jerry tem sido meu motorista desde que cheguei  cidade. Tenho o nmero particular de seu telefone e chamo-o sempre que preciso sair. Detesto esperar por um txi nesta cidade! E Jerry  discreto.
Flynn cumprimentou com um movimento de cabea. Jerry lanou-lhe um olhar cheio de desconfiana.
	Vivo nesta cidade desde que nasci. Reconheo um tira de longe.
	No diga bobagens, Jerry! Flynn  mecnico de motos. Vamos?
O motorista no discutiu mais, porm, continuou olhando furtivamente pelo espelho retrovisor.
O txi atravessou a cidade em tempo recorde. No teatro, Dixie apresentou Flynn ao porteiro.
	O sr. Torrano no mencionou ningum com o nome de Flynn. Tenho minha lista aqui.  O porteiro pegou uma prancheta.  Olhe. Aqui no consta nenhum tira.
	Flynn no  um tira. Cus, Dwayne! De onde tirou essa ideia? Ele  meu guarda-costas!
	Ele parece um tira  Dwayne insistiu.
Para Flynn, Dwayne parecia um ex-contraventor. Ambos encararam-se como dois animais selvagens que se conheciam pelo instinto.
	Ele no  tira.  Dixie empurrou a mo do homem, forando-o a guardar a prancheta na gaveta da escrivaninha.
 Vamos esquecer as regras desta vez, Dwayne. Faa isso por mim, ok?
Dwayne tentou olhar para Dixie de modo ameaador, mas era impossvel no sorrir. O porteiro lutava para no ceder aos encantos de Dixie.
	Devo obedecer s ordens do sr. Torrano.  ele quem paga nossos salrios.
	Dinheiro no  tudo, Dwayne.  Dixie abusou de seu sorriso irresistvel.  Lembra-se do xarope que eu mesma preparei quando voc teve aquele acesso de bronquite na semana passada? Foi mgico, no foi?
Dwayne vacilou.
	Bem...
	Flynn  inofensivo, Dwayne. Confie em mim.
0 brilho dos olhos dela arrancaram um sorriso de Dwayne finalmente. E ele concordou, ainda que relutante.
	Tudo bem, tudo bem. S por esta noite.
	Obrigada, Dwayne.
De relance, Flynn ainda percebeu o olhar suspeito do porteiro. Havia algo no olhos dele que Flynn conhecia muito bem. Um ex-contraventor.
Dixie conduziu-o por um labirinto de corredores e escadas. Pelo eco dos passos, deduziu que caminhavam por um tnel sob o teatro. Rapidamente, Flynn memorizou um desenho do locai. Um tira nunca sabia quando precisaria de uma porta de sada. Ouviu uma orquestra tocando a distncia. Cruzaram com dois homens carregando uma escada. Cumprimentaram Dixie que respondeu carinhosamente, sem perceber que os homens quase derrubaram a escada, depois de olh-la com admirao.
Chegaram num corredor com muitas portas, todas com fotos de garotas, cartes, recortes de revistas.
Uma jovem de robe, cabelos alaranjados, espiou por uma das portas, viu Dixie e gritou:
	Dixie! Cus! Voc fez isso! Hei, todo mundo! Dixie est aqui!
No mesmo instante, todas as portas se abriram e Dixie foi rodeada por uma multido de pessoas usando fantasias ou biquinis. Todos pareciam felizes por v-la.
	Conte-nos tudo  pediu um rapaz com terno verde.
	Oh, Dixie! No acredito que teve coragem.  Uma das jovens puxava-a pelo brao.  Felizmente, voc veio. Imaginvamos que teramos que cancelar o show desta noite.
	Os jornais vespertinos. trazem sua foto. E contam a histria toda!  Um homem de bigode exibia o jornal.
Dixie, Joey a matar.
	Ele vai acabar com o show.
	Quem  o bonito, Dixie? Aquele de motocicleta que a ajudou a fugir da igreja?A garota de cabelos alaranjados sorriu para Flynn.  A foto nos jornais no lhe fazem justia. Hyia, bonito!
Dixie calou todas as vozes com um grito.
	Calma! Silncio, por favor! Temos um show para fazer. Conversaremos depois do espetculo, ok?
	Mas...

	Ela tem razo  ordenou um homem com roupas comuns. Flynn imaginou que fosse o diretor do show. O homem verificou as horas no relgio de pulso.  Todos a postos dentro de uma hora.
	Uma hora!  Dixie repetiu.  Preciso me arrumar.
Entrou em seu camarim. Flynn a seguiu. Os demais integrantes do elenco desapareceram dentro das inmeras portas ao longo do corredor.
	Sente-se em qualquer lugar  disse  Flynn, aproxi mando-se da mesa de maquilagem.
Desde o momento em que entrava no camarim, Dixie obedecia a uma rotina. Achava que seria de mau agouro no seguir o esquema regular. Em primeiro lugar, tratava de tornar o camarim muito aconchegante, para relaxar.
Abrindo a mochila, comeou a tirar seus objetos. A peruca extra, os sapatos de salto alto, a bolsa de maquilagem. Depois, algumas fotografias emolduradas, que colocou sobre a mesa.
	Quem ?  Flynn indagou, segurando a primeira foto.
	Meu pai.  Dixie tirou a foto das mos de Flynn.
Sorriu orgulhosa para o retrato que mostrava o famoso Downhome Davis, particularmente arrojado. O fotgrafo conseguira registrar seu carter com preciso. Meio xerife do Velho Oeste, meio poltico dos tempos atuais.
	Papai  prefeito de Sweet Creek. No ficou lindo com esse chapu?
	Humm...  Flynn resmungou, no muito impressionado com o esplendor do sr. Davis. Pegou outra foto.  Cus! Quem  esta?
Era uma foto artstica da me de Dixie, Darlene Butter-field Davis, tirada duas dcadas atrs.
	Ora,  a mame! Ela ainda  fabulosa. Precisa v-la de maio.
	Uau.  Ele parecia hipnotizado pelo comprimento das pernas, pelo volume dos seios, pelo sorriso largo da sra. Davis. O vestido de noite de cetim ressaltava as curvas dos quadris. Com certeza, Darlene Butterfield Davis fora considerada uma mulher irresistvel. Aparentemente, Flynn tambm no estava imune ao seu charme.
	Ela no  demais? Mame foi Miss Texas durante dois anos seguidos. Ningum jamais conseguiu esse mrito. Nem antes, nem depois dela. Claro que ela no revela os anos em que venceu o concurso.  muito discreta com relao  idade.
	Ela ... muito bonita.
	Bonita? No mnimo,  magnfica!
	Agora sei de quem voc herdou seus... uh, seus...
: Os famosos seios Butterfield? Eles so uma bno e uma complicao. Minha av danava no Ziegfeld Follies e foi uma das primeiras mulheres a exibir-se de topless no Texas. Chegou a ser presa vrias vezes. Mame sempre disse que topless era vulgar, por isso nunca usei. Voc concorda que, realmente, no tem nada a ver? Danar pelo palco com os seios  mostra?
Flynn teve um ataque de tosse e Dixie deu algumas palmadas nas costas dele.
	Foi a mame quem me introduziu no show business.
	Ela deve ter muito orgulho de voc.
	Espero que sim. Preciso fazer jus aos famosos seios Butterfield, no ?
Flynn tossiu novamente, desta vez, mais controlado. Apontou para mais duas fotos.
	Quem so estes rapazes?
	Oh, so meus...
O telefone tocou, interrompendo-a. Dixie pulou, assustada, mas no fez qualquer movimento para atender.
	Qual o problema?  Flynn perguntou.
	E Joey. Ele sempre liga antes do incio do show.
	Deixe que eu atendo.
	Espere, Flynn. Ainda no estou preparada...
Ele tirou o fone do gancho. No tinha certeza do que o esperava. Porm, detestava o olhar de pnico de Dixie.
	Al?
Silncio. Depois, uma voz rspida e autoritria.
 Chame Dixie.
Flynn teve certeza de que se tratava de Joey Torrano.
	Sinto muito, mas o senhor ligou para o nmero errado.
	Oua bem, seja l quem  voc  a voz esbravejou.  Ponha essa perua maluca no telefone. Agora!
Flynn o odiou. Odiou o tom de desprezo com que ele pronunciava cada palavra.
	O senhor ligou...
	Quero falar com ela j  Torrano ordenou.  Ou vou at a e...
Flynn desligou antes que ele completasse a ameaa. O telefone recomeou a tocar.
	No atenda  Dixie pediu.  No tenho tempo para me aborrecer.
	Voc  a chefe  Flynn concordou, absurdamente feliz por ela no querer falar com o gngster. Esperou at o telefone parar de tocar.  E agora?
	Preciso me aprontar para Sven.
	O que  Sven?
	O que , no. Quem . Sven  o massagista que Joey contratou para mim. Ele chegar a qualquer... oh,  ele.  Ouviu-se uma leve batida na porta do camarim.  Hey, Sven, doura. Entre!
O aposento, j pequeno, tornou-se menor ainda com a presena daquele homem imenso, que mais parecia um lutador profissional. Os cabelos loiros eram bem curtos, tipo recruta. Vestia camiseta regata que deixava  mostra os msculos rijos dos braos e do peito. O short justo de lycra ressaltava os msculos das coxas. Sem o menor esforo, carregava uma mesa de massagem porttil sob o brao troncudo.
	Pronta, Dixie?
	Sim. Sven, este  o meu novo guarda-costas, Flynn.
Ele tomar conta de mim por alguns dias.
Sven lanou um olhar perscrutador na direo de Flynn.
	Hey.
Flynn no conseguiu decifrar a mensagem contida nos olhos srios do massagista.
	Uh, al.
	Arme sua mesa, Sven. Vou tirar a roupa. Flynn, por gentileza...
Flynn ouviu as palavras tirar a roupa e esqueceu-se de avaliar a figura de Sven. Sabia que seria melhor escapar para o canto mais remoto do minsculo camarim antes que se trasse diante de uma Dixie despida.
Porm, foi bloqueado por Sven, que abriu e armou a mesa bem no caminho da sada.
	Ele pode ficar  Sven declarou, fitando Flynn com olhar frio.
	Talvez, seja melhor esperar l fora, at que...
	No. Coloque uma msica  Dixie falou, tirando a camiseta.  Est vendo aquela pilha de fitas na mesa?
Flynn nunca convivera com o pessoal do show business. J no longo corredor de camarins, percebera o modo com que os atores lidavam com os corpos. Encaravam a seminudez com a maior naturalidade. Dixie no fugia  regra. Tirou a camiseta, jogando-a sobre a mesa de maquilagem.
No momento em que ela abaixou-se para descalar as botas, Flynn arriscou um olhar para os seios generosos, envoltos pelo suti de renda. Depois, ela tirou o jeans.
Ele inclinou a cabea, fingindo examinar as fitas cassetes. Suas mos tremiam.
 Escolha algo agradvel  Dixie sugeriu.
"Agradvel para qu?", Flynn perguntou-se. "Tortura?" Virou-se a tempo de v-la subindo na mesa de massagem apenas de calcinha e suti. Assim que deitou-se de bruos, ela tirou o suti, largando-o no cho.
Com olhos arregalados, Flynn deparou-se com as mais belas costas do planeta! A formas perfeitas terminavam em duas covinhas sensuais bem acima das ndegas, mal cobertas pela minscula calcinha azul. Um pssego dourado pendurado no galho de uma rvore no seria mais delicioso do que aquela viso, naquele momento.
Sven pegou um vidro de leo da mesa de maquilagem, depositando uma grande quantidade em sua mo enorme. Seu corpo macio bloqueava a porta e ele encarava Flynn com olhos cheios de suspeitas.
Sufocando um gemido, Flynn tentou desviar o olhar do corpo de Dixie. Conscientizou-se de que estava preso num minsculo camarim com o Furaco do Texas e que estava prestes a vivenciar a maior agonia que um ser humano jamais conhecera!
Assistir a outro homem massagear o corpo dela!
Quase morrendo de calor, tirou a jaqueta de couro.
	Ligue o toca-fitas  Dixie pediu.  Algo suave e sexy, ok, Flynn? Preciso estar bem equilibrada para o show.
Flynn no se preocupou em examinar as msicas. No sabia se conseguiria ler os ttulos. Simplesmente, colocou a primeira fita no toca-fitas, ligando-o. Fitou o corpo de Dixie. Sven cobrira-a com uma toalha branca, do tamanho de um guardanapo!
Ela tirou a calcinha tambm, jogando-a ao cho. Flynn sentiu a boca e a garganta secas. Dixie ficara completamente nua sob aquele pedao de toalha!
Sven espalhou o leo nas costas de Dixie. A msica comeou. O camarim foi invadido pelo som sensual de uma guitarra acompanhando uma cantora, que Flynn No conseguiu identificar. Parecia que cantava em francs.
Dixie soltou um gemido suave.
	Oh, Sven. Voc  o mximo!
Ele no respondeu, totalmente concentrado em seu trabalho. E que trabalho!
Hipnotizado, Flynn acompanhava os movimentos das mos dele nas costas de Dixie. Ele quase podia ver o corpo relaxando sob a massagem eficiente de Sven.
	Maravilhoso!  Dixie murmurou.  Flynn, por favor, apague as luzes.
Sempre com os olhos fixos nela, Flynn apalpou a parede at encontrar o interruptor. O camarim ficou na penumbra, iluminado apenas por um spot.
Sven removeu a toalha para massagear as ndegas de Dixie. Flynn viu quando uma gota de leo caiu das mos de Sven e escorreu pela pele macia.
Flynn sufocou um gemido de desejo. Queria acompanhar a trajetria da gota com a ponta dos dedos. Queria encher as mos com a carne macia das ndegas de Dixie. Queria empurrar Sven para o lado e poder acarici-la  vontade.
Mais do que tudo, queria virar Dixie de costas, para inebriar-se com a imagem do outro lado do corpo. Ansiava por ver seus seios, por toc-los. Queria sentir todos os pontos sensveis de sua pele.
Com voz sonolenta, Dixie perguntou:
	Voc disse alguma coisa, Flynn?
	N... no. - A resposta foi pouco mais do que um murmrio.
Tentando recompor-se, ele se inclinou para pegar as roupas do cho. Daquele ngulo, pde ver o sorriso sonhador que brincava nos lbios dela.
No sabia por quando tempo mais poderia suportar aquela tortura. Sentia todos os seus nervos vibrando de desejo.
Sven trabalhava em silncio. Suas mos deslizavam pelas coxas, pelas pernas, at chegarem nos ps de Dixie. Flynn tinha mpetos de jogar Sven porta afora.
Dixie parecia perdida numa bruma de prazer.
	Suficiente?  Sven murmurou por fim.
	Oh, sim!  Ela suspirou, satisfeita.  Sim, Sven. Agora,  melhor despertar-me.
Rapidamente, ele comeou a reaviv-la com movimentos menos suaves. Dixie parecia refrescada e energizada. Soltou uma piada, e Sven. riu.
Trocaram brincadeiras por alguns instantes, mas Flynn no ouviu. Queimava de cime!
	Luzes.  A voz de Sven arrancou Flynn dos devaneios.
	Oh, uh, certo!  Ele tocou no interruptor e piscou.
Dixie enrolou-se numa toalha grande que Sven lhe entregara. Sentou-se na mesa de massagem. Em seu rosto havia um brilho de vitalidade. Quando fitou Flynn, seus olhos danavam de alegria.
	Voc est bem?  ela perguntou.
	Sim  apressou-se em responder, sabendo que Sven o observava.
	Voc est suando  Dixie notou.
	Est muito quente aqui.
Est?Ela parecia surpresa. Acha que est quente, Sven?
Estou sempre com calor  ele afirmou com um sorriso forado.
Dixie riu.
	Bem, abra a porta, Flynn, enquanto tomo um banho rpido.
	Banho?
Flynn no notara o banheiro anexo. Dixie foi para o chuveiro, e Sven removia o leo das mos com a pequena toalha. Depois, guardou seu equipamento.
A ss com Sven, Flynn atreveu-se a usar a voz.
	Quantas vezes voc vem aqui, Sven?
	Massageio Dixie antes de cada apresentao.
Aparentemente, Flynn fora aprovado em algum tipo de teste, pois o massagista continuou a falar num tom amistoso.
	Todos os atores precisam de uma preparao antes de entrarem em cena. H casos em que fao massagem tambm depois do espetculo.
	Emprego agradvel!
	Oh, sim. Amo minha profisso. Trabalho em todos os teatros da Broadway.
	Voc deve conhecer muitas pessoas interessantes.
	Muitas estrelas, sim. Mas, Dixie  a melhor de todas. Ela tem um corpo bonito e um corao maravilhoso.  Inclinou-se como se contasse um segredo.  E tem o bumbum mais bonito da cidade. Porm, no permite que o sucesso lhe suba  cabea.	
Flynn riu, sem saber ao certo se Sven falava a srio ou no.
Dixie saiu do banheiro vestindo um roupo felpudo.
	Novamente fazendo alarde do meu bumbum, Sven?
	Comento com todos sobre esse assunto, querida. O que  bonito deve ser notado por todo mundo.
	Bem, dizem que alguma publicidade j  boa publicidade  ela argumentou entre risos.  Obrigada. Voc  justamente o que eu mais precisava num dia como o de hoje.
	Volto mais tarde?
	No. Darei um jeito de encontrar outra maneira para relaxar depois do show.
Sven piscou o olho.
	No faa nada que eu no faria!
Com mais risadas, despediram-se. Sven partiu com a mesa debaixo do brao.
Dixie virou-se para Flynn com expresso de divertimento.
	H muito tempo no via Sven to bem-humorado. Acho que  por sua causa.
	O qu?
	Ele o achou muito sexy!
Confuso, Flynn estreitou os olhos.
	Eu no... O que voc quer dizer?
	Que Sven  gay, claro! Voc no percebeu?
	Cus, no! Como poderia saber?
	No fique embaraado. E sempre bom ser admirado.
	No estou embaraado.
No corredor, algum gritou.
	Trinta minutos para comear o show!
O aviso fez com que Dixie esquecesse Sven.
	Agora, vou me preparar.
Flynn sentiu a cabea girar. Viver ao lado de Dixie era o mesmo que conviver com um furaco.
	Quer que eu espere l fora?
	No  preciso.
Dixie se movimentava pelo camarim separando roupas, escolhendo outras msicas, organizando os objetos de ma-quilagem. Colocou outra fita no aparelho, cantarolando.
Sentou-se diante da mesa de maquilagem. O roupo entreaberto revelava as pernas bem delineadas. Examinava o rosto diante do espelho. Maquilava-se, enquanto exercitava a voz. As mos se moviam rpidas e firmemente. A voz tornava-se mais alta,  medida que subia as escalas. Flynn descobriu que gostava de ouvi-la.
O rosto de Dixie transformou-se numa mscara vibrante e colorida. Contornou os lbios com o lpis e depois, como toque final, aplicou um batom vermelho vivo.
	Quinze minutos!  algum tornou a avisar.
	Agora o vestido  Dixie resmungou.  Por favor, Flynn. Pegue aquela coisa vermelha, sim?
	Coisa vermelha?
	Sim. Ali.  Apontou para uma cadeira.
	Isto?  Flynn pegou unia faixa vermelha de onde pendiam tiras de cetim.  Isto no  exatamente um vestido.
Dixie riu da expresso dele.
	Nesse show,  um vestido, sim!
	Voc entra no palco assim?  Flynn no escondia o espanto.
	Por que no? Fico muito bem com esta roupa.  Correu para o banheiro, de onde saiu vestida.
Flynn admitiu que, realmente, ela ficava muito bem com aquele traje. Bem! Bem demais, na verdade!
Involuntariamente, ele assoviou.
Soltando uma gargalhada, ela remexeu os quadris, feliz com o elogio.
	Cinco minutos!  avisou a voz vinda do corredor.
	Ajude-me com o microfone  Dixie pediu, entregando a Flynn uma caixa eletrnica do tamanho de um rdio transistor. Virou-se.  Prenda-o nas costas do vestido.
Flynn hesitou.
Temia toc-la. Temia no conseguir parar de toc-la.
	Algum problema?
	No. Nenhum  mentiu.
Com delicadeza, Flynn colocou o microfone no interior da faixa vermelha, que fazia as vezes de blusa.
	Obrigada. E, ento? Est gostando do emprego?
	Oh!  Flynn sentiu a boca seca.    Creio que vou me acostumar!

CAPITULO IV

Quando as cortinas se fecharam, Dixie vibrou _"com os aplausos daquele noite. Mesmo assim, ela no se impressionava demais. Sabia que The Flat-foot and the Floozie no era exatamente War and Peace. E, apesar de atuar no papel principal, ainda era considerada uma estrela de teatro de variedades. Tudo o que precisava fazer era mostrar-se radiante, exibir as pernas, cantar um pouco e danar no meio do palco entre os demais atores. Basicamente, imitava a av Butterfield, sem despir-se em cena.
Graas ao talento musical e coregrafo de todos os atores, somado aos efeitos de luzes, o show tornara-se um dos mais importantes da Broadway nos ltimos anos.
Dixie correu ao encontro de Flynn.
	O que voc achou? Gostou? Creio que nesta noite foi timo!
	Foi bom  Flynn concordou, acompanhando-a pelo corredor.  Voc  terrvel.
	Kiki foi maravilhosa esta noite, no? Venha comigo.
Vamos at a greenroom conversar com o pessoal.  o que chamo de reunio do elenco.
Todos os participantes do show estavam na greenroom, uma sala onde costumavam relaxar depois do espetculo. Algumas atrizes vestiam roupes e bebiam gua direto das garrafas plsticas. Os homens haviam tirado as malhas de bale e usavam toalhas no pescoo.
Dixie entrou na sala, seguida por Flynn, que se refugiou a um canto. Dixie sentou-se no meio dos colegas.
	Ok, Dixie  Charles Kenton, o ator principal, foi o primeiro a falar.  Conte-nos a verdade. Joey vai ou no acabar com o show?
Todos fitaram-na com ansiedade.
	No sei  disse, odiando anunciar ms notcias. Nunca pretendera tornar-se lder do elenco. De repente, fora forada pelas circunstncias a assumir o papel.  O que eu acho provvel  que Joey deixe de patrocinar a pea.
Suas palavras provocaram murmrio geral.
	Ora, Dixie  Charles a provocou.  H semanas voc tem estado na cama de Joey Torrano. Com certeza, voc soube como usar sua influncia.
	No tenho estado na cama de Joey Torrano h semanas!  Dixie defendeu-se.  E todos do elenco sabem que  verdade!
Muitos colegas de Dixie manifestaram apoio em voz alta.
 Ouam-me, por favor  ela interrompeu a conversa.  Tudo o que sei  que hoje eu deveria ter me casado com Joey e no me casei. Eu apenas... bem, no poderia ter me casado com ele.
	Agora, ele vai acabar com o show  Charles gritou.
	No  responsabilidade de Dixie manter o show em cartaz  Kiki Barnes manifestou-se.  Se no fosse por ela, no teramos ido alm da primeira semana!
Charles lanou um olhar rancoroso para Dixie.
	Voc no poderia dormir com Joey s para prolongar nossa temporada?
	No, eu no poderia  Ela respondeu com frieza.  Tenho amor prprio, Charles...
	Sem mencionar os duzentos dlares por semana que voc recebe a mais do que ns  ele a interrompeu.
	Estou disposta a abrir mo desses duzentos dlares e do meu salrio tambm para bancar o show, caso Joey retire seu patrocnio. S que no sei quanto tempo aguentarei. No posso fazer tudo sozinha.
	Isso mesmo  Kiki concordou.  Se quisermos continuar apresentando o show, precisaremos encontrar outro patrocinador.
	No podemos encerrar o show  outro ator interveio.
	Preciso deste emprego! E Kiki... bem, ela precisa mais do que ningum.
Todos se calaram por um momento. Dixie sabia perfeitamente do quanto Kiki Barnes precisava daquele trabalho. Kiki ajudava financeiramente o irmo gmeo, doente com AIDS. Durante muitos anos, ele fora bailarino em Nova York, sendo amigo de muitos dos atores do elenco do show. Ningum queria perder o emprego, inclusive Dixie, mas, principalmente, por Kiki.
	E, ento?  Charles quebrou o silncio desconfortvel. Onde conseguiremos outro financiador?
	Tenho uma ideia  Dixie falou e todos os olhares se voltaram para ela.
	Que ideia?
	Acredito que Joey continuar patrocinando o espetculo, desde que eu saia do elenco.
	No!  gritaram muitas vozes.
	E verdade  ela argumentou.  Eu feri seu ego! Ele no se importar de colocar seu dinheiro no Flatfoot se eu no estiver aqui para lembr-lo de...
	Grande ideia  Charles a interrompeu de novo.  Mas, totalmente intil. Se voc sair, a sim  que fecharemos as portas. Com voc no palco todas as noites, pelo menos, venderemos ingressos.
	Voc no ouviu o resto do meu plano  Dixie insistiu.  Acho que deveramos desafiar Joey.
	Desafi-lo?
	Sim, fazendo-o acreditar que h outra pessoa interessada em patrocinar o show. Com certeza, Joey vai continuar investindo no Flatfoot, apenas para derrotar o outro cara.
	Que outro cara?  Charles indagou.  Onde voc vai conseguir outro milionrio? Ou j encontrou outro marido em potencial, Dixie?
Muitos atores se voltaram para olhar Flynn, que permaneceu calmo e em silncio. Dixie enrubesceu.
	No, no encontrei outro marido milionrio  ela esclareceu.  Talvez no seja necessrio.
	No?  Charles no desistia.
 Talvez possamos construir um.  Dixie calou-se por um instante, antes de prosseguir.  Acho que Joey continuar patrocinando este show se acreditar no interesse de outra pessoa. Ento, nada melhor do que criar um competidor.
	Criar?
	Exato. Tudo o que precisamos  declarar  imprensa que h outro patrocinador interessado no espetculo. O resto vir sozinho.
Kiki entusiasmou-se com a ideia.
	Precisamos de algum para as fotos. Os jornais pediro fotografias.
	Que tal Charles? - algum sugeriu.   s mudar a maquilagem, colocar barba postia e um terno...
	No, os reprteres descobririam na hora  Charles protestou.  Meu rosto  muito conhecido. Sou famoso felizmente! Se essa ideia maluca vingar, precisaremos de um desconhecido. Algum que os jornalistas nunca viram antes.
Instintivamente, todos se voltaram para Flynn com olhar curioso.
Percebendo algo estranho no ar, Flyrn manifestou-se:
	O que aconteceu? Por que esto olhando para mim?
	Ele poderia ser de outra cidade  Kiki considerou. 	Flrida, talvez. Ou Las Vegas.
	Califrnia  uma voz interveio.  Ele  bem apresentvel para ser de Las Vegas.
	Ele precisa de uma histria.  Charles o fitava com olhos experientes de ator.  Um passado. Como conseguiu dinheiro?
	Poos de petrleo?
	Especulaes? Jogos?
	O que acham de esportista profissional?  uma das atrizes sugeriu.  Ele tem o fsico avantajado de um atleta.
	Flynn, voc j praticou algum esporte?  Dixie quis saber.
	O que est acontecendo? Do que vocs esto falando?
	Flynn mostrava-se confuso.
	Na escola  ela continuou, sem dar-lhe ateno.  Futebol? Artes marciais? Basquete talvez?
	Lutei um pouco de boxe e...
	Boxe!  Kiki vibrou.  Adoro boxe! Ele  um ex-lutador de boxe com muito dinheiro e disposto a investir na Broadway. E sabem o que mais? Ele  alto! Joey o odiar  primeira vista!
	Esperem...  Flynn comeou.
	Experimente isto  um dos extras aproximou-se comum terno nas mos.  Deve servir para voc.
O grupo arrastou Flynn para o centro da sala. Dixie sorria. Para desespero de Flynn, seu plano entusiasmara a todos os colegas de elenco.
Flynn experimentou vrios palets, at encontrarem um que lhe vestisse bem. Algum colocou um cachimbo na mo dele. Um bigode postio completou o disfarce. De repente, Flynn se transformara num milionrio excntrico, com um passado misterioso. Exatamente o tipo de personagem que a imprensa adorava degustar.
	Por favor, parem com isso  Flynn protestou, sofrendo nas mos dos atores entusiasmados.  No entendi muito bem o que pretendem, mas...
	Voc nunca sonhou em ser ator?  Charles indagou num tom sarcstico.  Todo ser humano deseja tornar-se estrela de cinema. Bem, a est sua chance, sr... Flynn, no?
Flynn retornou ao Plaza com Dixie totalmente contrrio ao plano.
	No posso fazer isso  reclamou.  Ningum acreditar que sou um boxeador profissional!
	Vou ensai-lo.
	Nem com todos os ensaios do mundo conseguirei convencer a imprensa ou seja l quem deverei convencer.
	S por alguns dias  Dixie argumentou, no momento em que entravam na sute.  Pelo tempo suficiente para convencer Joey a assinar um novo contrato para patrocinar o show. Assim que conseguirmos a assinatura, voc ficar livre.
Ela acendeu as luzes e jogou a mochila no sof. Depois de tirar a peruca, ajeitou os cabelos curtos.
Flynn fechou a porta, sem saber o que fazer com a mala que trouxera do teatro, repleta de roupas que os atores haviam selecionado para sua caracterizao. Olhou para Dixie em total desespero.
	Dixie, no posso fazer isso!
	Por que no? Voc j faz parte do grupo. Alis, voc est maravilhoso!
	Sinto-me um perfeito idiota.
Parou diante do espelho. A imagem refletida no parecia mais ele mesmo. Talvez, sua famlia o reconhecesse sob o falso bigode e o elegante terno Armani. Porm, seria capaz de apostar como muitos de seus colegas de polcia jamais o reconheceriam. E, se reconhecessem, no conteriam as risadas e as brincadeiras.
Indiferente ao dilema que o atormentava, Dixie descalou as botas e tirou o fone do gancho.
	O que voc vai fazer?  Flynn perguntou, esquecendo-se por um momento dos prprios problemas. Ainda no estava preparado para recomear a lutar contra sua atrao por ela.
Dixie discou alguns nmeros.
	Estou faminta. Vou pedir nosso jantar. O que prefere?
	No tenho vontade de comer.
	Por qu?
	No sei. Medo de representar, talvez.
	Realmente,  muito desgastante. Oh, al? E da copa? Aqui  Dixie. Voc poderia providenciar... deixe-me ver... omeletes? Sim, omeletes  moda do Oeste, com batatas e tudo o mais. Frutas tambm. Ah, e chocolate! Sim, sim, perfeito. Para dois, claro. Sim, para duas pessoas. Obrigada.
Desligou o telefone e foi para o quarto.
	Voc deve atender  porta de cara nova  recomendou a Flynn.  Quero que os funcionrios do hotel sejam os primeiros a conhecer meu boxeador milionrio.
	Pensei que voc preferisse manter-se em segredo aqui.
	Agora, no mais  ela disse, de dentro do quarto, sem se preocupar em fechar a porta.  Melhor fingirmos que estou com meu novo namorado.
Num salto, Flynn chegou ao quarto.
	Voc est brincando!
De costas para ele, Dixie trocava a camiseta por uma camisa de homem. Deixou alguns botes abertos de propsito.
	Claro que no estou brincando! A melhor maneira para enfurecer Joey  fingirmos que voc tomou o lugar dele. Exceto por uma coisa.
	Que coisa?
	Joey nunca esteve aqui  apontou para a cama.
	Voc nunca dormiu com ele?  Flynn no sabia se acreditava nas palavras dela. A menos que Joey fosse de ferro, o normal seria sentir-se atrado por ela.
	No, nunca dormi com ele. Na verdade, mal o conhecia. Mas, faremos com que acreditem que voc e eu... bem, que estamos profundamente envolvidos. Confie em mim. Essa  a melhor maneira de conseguirmos a ateno de Joey.
Sem falar da ateno do departamento de polcia! Flynn quase podia ouvir o riso e as brincadeiras dos colegas, quando soubessem em que tipo de encrenca se envolvera.
Dixie tirou o jeans, ficando s de camisa. Segura de que Flynn no mudaria de ideia, sugeriu:
	Voc no se importa de ficar aqui, no ? Providenciarei para que fique bem  vontade.
"Duvido que seja possvel", Flynn pensou.
	Poderemos trazer sua moto para c, se isso o ajudar a sentir-se melhor.
Ela sorriu de um modo encantador. Flynn no pde evitar um sorriso meio forado.
	Ajudar, sim.
"Pelo menos, terei alguma coisa a mais com que me preocupar", ele refletiu.
Rindo, ela se aproximou do telefone.
	Considere-se atendido!
Enquanto ela telefonava para o porteiro pedindo que trouxessem a Harley, Flynn tirou o palet Armani e a gravata de seda. Esperava que os atores tivessem lembrado de colocar roupas mais informais para seu personagem. Ternos e gravatas de griffe, decididamente, no faziam parte de seu estilo.
Estava removendo o bigode com cuidado, quando Dixie desligou o telefone.
	Oh, no tire ainda!  ela gritou, correndo para ajeitar o bigode no lugar.  Voc precisar dele para atender o copeiro.
	Ora, vamos...
	No, no.  srio. Ele deve ser espio de Joey. Fique com o bigode. Voc est muito bem assim. Muito bem, alis.
	Estou com coceira!
 Quer que eu coce, doura?  Os olhos azuis brilhavam divertidos.
O momento pareceu uma eternidade. Flynn no teve dvida quanto  astcia estampada no rosto de Dixie. Ela era inteligente e talentosa. Flynn percebera o quanto ela creditava aos colegas o sucesso de The Flatfoot and the Floozie. Entretanto, parecia no ter notado que era sua presena que abrilhantava o show e garantia bilheteria. Dixie no era uma pessoa prepotente.
Estranha caracterstica para uma mulher capaz de deixar um homem em chamas.
O sorriso divertido comeou a desaparecer, assim que ela percebeu uma mudana no clima entre ambos.
	Hum...  Talvez, ela tenha visto algo comear a brilhar nos olhos de Flynn.  Vou para o chuveiro. Costumo tomar um banho depois do espetculo.  relaxante.
Flynn tossiu de leve.
	Fique  vontade. No quero atrapalh-la.
	Avise-me quando trouxerem o jantar.
Dixie fechou a porta do banheiro, e Flynn ouviu o barulho da gua na banheira. Respirou aliviado.
No era nada inteligente sentir-se atrado pela mulher sob sua vigilncia. Ele tinha plena conscincia disso. Era uma das primeiras regras que um policial aprendia. Sexo, geralmente, complicava as coisas. Muitas vezes, envolvimentos desse tipo custavam o emprego do policial.
Debaixo do chuveiro, Dixie cantarolava uma das canes do show. Flynn desejou saber se ela j havia despido toda a roupa...
Afastando da mente as fantasias perigosas, Flynn decidiu ligar para o sargento Kello e contar as novidades. Da delegacia, teve a informao de que o sargento j terminara seu turno de servio. Frustrado, desligou.
Comeou a caminhar pela sala.
Como permitira que as coisas chegassem naquele ponto? Ele era apenas um policial de prontido. Nada mais. Mas, de repente, via-se dentro de um terno emprestado e usando um ridculo bigode falso.
O pior de tudo, porm, era a perspectiva de passar uma noite na sute de Dixie Davis. Um pensamento terrvel brilhou em seu crebro. Parou de andar. Perguntou-se se Dixie dormia nua.
Uma leve batida na porta anunciou a chegada do jantar. O garom pareceu no notar nada de estranho no bigode de Flynn. Parecia, sim, muito curioso com a presena dele na sute. Com certeza, ouvia a voz de Dixie cantarolando no banheiro. Se o garom fosse mesmo espio de Torrano, teria muitas histrias interessantes para contar ao chefe.
Nesse momento, chegou um boy do hotel trazendo a Har-ley. Flynn esqueceu-se da comida, para dedicar-se inteiramente  moto. Verificou cada parafuso, certificando-se de que estava tudo em ordem.
	Bonita moto  o boy comentou, evidentemente tentando descobrir quem era Flynn.
No sabendo como explicar por que o misterioso ex-boxeador da Califrnia teria uma antiga Harley-Davidson em Nova York, Flynn limitou-se a dizer:
	Obrigado.
O boy e o garom se afastaram. Flynn apressou-se em fechar a porta.
A ss novamente, estacionou a moto ao lado do piano. Depois, levou o carrinho com a comida para o quarto.
	E o nosso jantar?  Dixie perguntou ainda na banheira.  Ou sua moto?
	Ambos.  Flynn levantou as tampas das diversas bandejas.  A comida parece deliciosa!
	E a moto?  Ela soltou uma gargalhada.
	Perfeita!

	Grande! Traga a comida para c.
Obedientemente, Flynn conduziu o carrinho at o banheiro.
	Entre, estou decente.
Por medida de precauo, Flynn entreabriu a porta e espiou.  Ela no estava decente!
A banheira estava cheia de gua e de espuma. A gua ainda corria. A espuma subira o suficiente para cobrir os seios dela.
	Acho melhor esperar na sala, enquanto voc se enxuga.  Flynn fez meno de sair.
	No seja bobo. Estou coberta. A comida vai esfriar.
Traga o carrinho aqui e venha jantar comigo. No tem nada demais.
Flynn passou a mo pelos cabelos.
	Para mim tem, sim.
Dixie riu.
	No teatro, costumamos trocar de roupa nos bastidores diante de, pelo menos, cinquenta pessoas entre uma cena e outra. Se continuar conosco por mais alguns dias, ver que no estou mentindo.
	J vi o suficiente, obrigado.
	Ora, vamos. Realmente, no me importo.
Flynn discutiu consigo mesmo por cerca de trinta segundos. Por fim, concluiu que no havia nada melhor do que jantar admirando Dixie Davis, o Furaco do Texas, em seu banho de espuma. Alm do mais, precisava descobrir mais a respeito dela.
Respirando fundo, entrou no banheiro de mrmore, espelhos, uma enorme banheira de hidromassagem e uma janela com vistas para o Central Park.
Dixie sentara-se com as espumas quase no queixo.
	No  aconchegante? Traga o carrinho aqui, doura. Sente-se nessa cadeira. Oh, tenho cerveja no balde de gelo. Sirva-se.
Ela segurava uma lata de cerveja mexicana. Flynn abriu uma lata. Dixie remexeu-se na banheira.
	A gua est maravilhosa.
"Voc est maravilhosa", Flynn quase falou.
Mas, conteve-se. Era o tipo de coisa que um policial jamais deveria dizer  mulher que investigava.
Dixie colocou a lata de cerveja na borda da banheira e aceitou o prato que Flynn lhe oferecia.
Estou faminta!
	O trabalho a deixou com fome  ele comentou, sentando-se na cadeira forrada de veludo vermelho com o prato na mo, Nunca assistira a um show da Broadway to de perto como hoje.  preciso um grande preparo fsico.
	Pode apostar que sim!  Dixie comia a omelete com gosto.  Vov Butterfield diz que costumava perder, no mnimo, dois quilos por show.
	Sua av atuou na Broadway?
	J lhe contei. Ela danou no Ziegfeld Folliesl Ela era fantstica! Tenho algumas fotos na mala e se voc...
	Oh, no. Posso esperar  Flynn a interrompeu, apavorado com a ideia de Dixie levantar-se da banheira para pegar as fotos.
	Vov era o mximo! Claro, hoje j no dana mais. Foi ela quem treinou mame para o concurso de Miss Amrica.
	Voc pertence a uma famlia privilegiada!
	Oh, sim. Herdei o gosto pelo show business da famlia da mame. Vov Butterfield e todas suas irms me deram muitas dicas maravilhosas.
	Voc tambm poderia me dar algumas dicas  Flynn murmurou, saboreando a comida.
Dixie serviu-se de uma poro de batatas fritas.
	Aposto que voc  um bom ator. Joey no duvidar que voc  um gngster da Califrnia.
Flynn olhou-a preocupado.
	Estou com cara de gngster?
	Um gngster perigoso, sim, quando voc franze a testa. O nico problema  que seu rosto no tem as marcas que caracterizam um lutador.
	Podemos mudar a maquilagem. Este bigode incomoda demais.
	Vamos tirar j!
Deixando o prato de lado, Dixie esticou-se sobre a borda da banheira. Nessa posio, as costas nuas se refletiam nos espelhos imensos. Esticou o brao e, obediente, Flynn se inclinou. Seu corao disparou. Sorrindo, Dixie puxou o bigode.
 Ui!  Flynn reclamou.  Calma!
	Voc  um beb, ?
	No, mas essa coisa est grudada com alguma cola super resistente! Ui! Ai!
	Aqui!  Ela exibiu o bigode triunfalmente.  Agora, jante.
De repente, Flynn inalou o perfume da gua. Sentiu mpetos de pegar um pouco daquela espuma e espalhar pelos braos de Dixie. Contendo os impulsos, tentou concentrar-se no trabalho que tinha  frente. Precisava interrog-la!
	Voc costumava jantar na banheira com Joey Trrano?
A pergunta surpreendeu Dixie.
	No exatamente. No.
Flynn continuou comendo, fingindo no importar-se com as respostas.
	Voc deve ter passado muito tempo ao lado de Joey.
Para aceitar casar-se com ele...
	Na verdade, no queria casar-me com ele  ela explicou, brincando com o garfo.  Fui... bem, no fui exatamente forada. Nem sei como tudo aconteceu. Joey era o produtor de The Flatfoot and the Floozie e passvamos muito tempo juntos no teatro. Percebi que ele sentia-se atrado por mim. Como a maioria dos homens.
Flynn apertou os dentes.
	Depois disso, a nica coisa que me lembro,  estar entrando novamente pela nave da igreja.
	Novamente?  Flynn repetiu.
Dixie esboou um sorriso.
	J comentei com voc que, no show business, uma mulher precisa estar sempre alerta. Sigo as regras da mame. Regra nmero um. Jamais fazer amor com um homem com quem no  casada.
	Nunca...
	Exato. Nunca ir para a cama com. ningum que no seja seu marido.
	Voc est dizendo...
Dixie enrubesceu.
	Joey queria dormir comigo. Bem, eu no concordei. No sem o benefcio do casamento. No entendo por que ainda sou uma moa  moda antiga, mas eu no consigo...bem, excitar-me com um homem, a menos que...
Flynn a interrompeu, perplexo com o que ouvia da mulher mais sexy do mundo.
	Voc quer dizer... Voc quer dizer que  virgern?
	Oh, claro que no!  ela apressou-se em esclarecer num tom alegre.  J fui casada duas vezes! Joey quase se tornou meu terceiro marido.
	Seu terceiro...
	Eu sei que ainda sou jovem para ter dois maridos, mas eu no vou para a cama com homens. Eu caso.  Dixie pegou o prato novamente, mas no tocou na comida.   Bem, meus casamentos no deram certo. Foi muito triste para mim.
	Sinto muito.
	Decidi no cometer o mesmo erro com Joey, por mais nobre que fosse a causa... bem, no importa o motivo.
O telefone tocou.
Dixie recuperou o bom humor.
	Por favor, passe-me o telefone, sim? Com toda esta espuma, no...
	Ok.  Flynn colocou o prato no carrinho. Pegou o telefone entre a quantidade de vidros de perfumes e cremes sobre o balco do banheiro. Estendeu o fone para Dixie.
	Al?  ela atendeu.
Dixie agitou-se na banheira e disse:
	Sim, claro que apresentei o show esta noite. Por que no apresentaria?
Flynn tocou na mo de Dixie e percebeu que ela tremia.
	Eu tinha que fazer o show, Joey  ela continuou.  Os ingressos estavam esgotados. Eu no poderia decepcionar o pblico.
Depois de ouvir o discurso de Joey, ela tentou argumentar.
	Joey, espere. Sinto muito. Realmente, sinto. Eu no podia continuar... Sim, claro. Sei que o coloquei numa situao embaraosa, mas no pude evitar. Sinto muito  repetiu.
	Desligue  Flynn murmurou.
Dixie estreitou os olhos, mas no desligou.
	No, Joey.  O tom era quase de splica.  Por favor, no suspenda o show apenas por minha causa. Todos do elenco dependem de voc. Realmente, somos sucesso de bilheteria. O show comear a dar lucros dentro de alguns meses. Ser um grande investimento. Acredite.
Aparentemente, Joey Torrano no acreditava. Dixie comeava a mostrar-se impaciente. Decidiu lanar o desafio.
	Oua, Joey. Faa o que achar certo. Se quiser retirar o patrocnio do show... bem, talvez outra pessoa se interesse e...
Torrano comeou a gritar do outro lado da linha. Dixie sorriu, piscando para Flynn. Tampando o bocal, sussurrou:
	Tenho certeza que acertei no alvo.
	No brinque com a sorte  Flynn aconselhou-a.  Desligue e deixe que a imprensa espalhe a notcia. Foi assim que combinamos, no?
Ela concordou com um movimento de cabea. Descobrindo o bocal, voltou a falar com Joey.
	Preciso desligar, Joey. Sim, estou jantando. No, claro que no tem ningum aqui comigo. Por que perguntou?
Torrano esbravejou ainda mais.
	No  Dixie respondeu.  Estou sozinha neste momento, Joey. Agora, v dormir e pense sobre a renovao do contrato de patrocnio do show, ok? Sim, boa noite. Boa noite, Joey!
Com uma gargalhada, entregou o fone para Flynn.
	Maravilha! Ele j est desconfiado!
	Desconfiado do qu?
	De voc!  Dixie bateu as mos na gua, espirrando espuma pelo ar.  Ele tem espies no hotel. Com certeza, j contaram a Joey sobre voc. Pensam que eu trouxe um homem para minha sute!
Voc trouxe  Flynn observou.

CAPITULO V

Dlixie recostou-se na banheira, satisfeita com  o rumo de seus planos.
	Bem, j lanamos a isca. Agora,  esperar para ver o que acontece.
Flynn mostrava-se mais cauteloso.
	Esse jogo  muito perigoso, srta. Davis.
	Eu no jogo.
	Acho que voc joga o tempo todo.
	No jogo, no.
	Primeiro, a cena do Furaco do Texas e...
	Talvez seja uma cena, mas exige muito talento.
	No  um jogo?
	E negcio.
	Show business.  Flynn concordou.  Faz parte do show business manipular as pessoas? Primeiro as envolve para depois obrig-las a fazer o que voc quer.
	Est se referindo a Joey? No sinta pena dele. Joey teve o que queria de nosso relacionamento.
	Mas, voc nunca fez amor com ele.
	No era isso o que ele queria  ela respondeu na defensiva.  Oh, ele me achava sexy e tudo mais, porm, me queria apenas porque eu o fazia parecer bom.
	E muito difcil parecer bom quando se viveu uma vida inteira como criminoso  Flynn argumentou.
	Ele queria impressionar a imprensa.  Ergueu o p para examinar as unhas.  Na verdade, Joey no  to mau assim.
Voc acha mesmo?  Com expresso sria, Flynn no demonstrou reparar na perna estendida sobre a espuma perfumada.
Dixie mergulhou a perna na banheira novamente.
	Ele investiu muito dinheiro no show.
	Voc avalia a bondade das pessoas pelo dinheiro?
	Claro que no!
	Parece que o est protegendo!  Flynn a provocou.
	De certa forma, talvez esteja mesmo. Apenas acho... bem, voc precisa conhecer meus amigos. Aqueles que trabalham comigo no teatro. Cada um tem uma histria diferente, e, por razes diferentes, o show  muito importante para todos. Por isso quero prolongar o espetculo pelo mximo de tempo possvel. Devo muito a esses amigos.
	Deve? Por qu?
Dixie pausou, decidida a no responder objetivamente.
	Admito que no sou exatamente o que aparento...
	Voc no  o Furaco do Texas?
	Sim, sou. Mas estou me referindo a quem sou na realidade, de onde vim...

	Percebi que em pblico voc carrega mais no sotaque, nos trejeitos.
	Claro que enceno um pouco! Mame e vov Butterfield morreriam de desgosto se eu no pisasse num palco da Broadway. Mas, oh... meu nome nem  Dixie!
	No?
	Papai me chama de Dixie desde que eu era beb. Meu nome de batismo ...
Flynn notou a relutncia na voz dela.
	Qual  seu nome de batismo?
Ela suspirou.
	Diana. Sem graa, no?
	No  sem graa.  bonito.
De repente, Dixie sentiu-se embaraada. No estava acostumada com homens interessados em conhec-la. Desde que chegara a Nova York, os homens a viam apenas como um objeto sexual. Ningum se preocupara em descobrir o ser humano que era.
	Em minha famlia, sem graa  sem graa  ela afirmou.  Voc deve ter personalidade, do contrrio, passa despercebido. Ento, tornei-me Dixie com alguma ajuda da mame e da vov Butterfield, admito.
	Voc enfeitiou Nova York.
	A mulher mais sexy do mundo? Que bobagem!  Ela ergueu os braos cheios de espuma.  Uau!
.Flynn conteve a respirao, tentando controlar os sentimentos que comeavam a fervilhar dentro dele. Era difcil observ-la deliciar-se com o banho.
	Voc  a coisa mais sensual que j apareceu nesta cidade.
Dixie afundou-se na banheira novamente.
	Voc acha?
Ele se inclinou, lutando contra o desejo de beij-la.
	Eu concordo com a opinio de todos.
	Apenas porque tenho senso de humor com relao ao meu corpo? Com relao ao sexo?  Ela balanou a cabea. Apoiou os braos da banheira, boiando.  Oua. Este  o corpo com o qual nasci. O que acha que devo fazer? Escond-lo s porque  politicamente incorreto ter seios grandes?
No. Rio e me divirto um bocado s minhas custas!
	Algumas mulheres afirmam que voc  explorada.
	Talvez as mulheres que tiram a roupa sejam exploradas. Eu cuido de mim. No vou para a cama com ningum. No me deprecio, nem me humilho. Dizem que sexo  divertido. Bem, para mim  muito srio. No concebo a ideia de sexo sem amor.
	Voc parece se divertir muito.  Flynn arriscou um olhar para o corpo sob a gua.
	Eu me divirto muito, sim. Para mim, a vida  muito mais do que sexo. Muita gente acredita que penso em cama vinte e quatro horas por dia por causa do meu jeito, das minhas roupas. No dou a mnima para a opinio dos outros. Quero apenas ser feliz. E sou muito feliz, sabe?  Nos olhos azuis surgiu um brilho de desafio.
Os pensamentos de Flynn no eram nada inocentes. Tudo o que desejava naquele momento, era entrar na banheira com Dixie e cobrir os lbios sensuais com os seus.
	Agora, voc est forando uma imagem que no combina com a sua. Se quisesse aparentar inocncia, voc andaria pela cidade cofti um hbito de freira. No com aquele chapu branco enorme e de suti.
	Eu no saio de suti pelas ruas!  Sentou-se novamente.
	Voc entendeu.
	No! No entendi! D-me a toalha!  Ela no escondeu o mau humor.  Tenho um corpo que irradia mensagens que, necessariamente, no quero transmitir para o mundo. Porm, no posso evitar de ter esta aparncia.
	Voc pode melhor-la.  Flynn entregou-lhe uma toa lha branca, felpuda.
	Por que deveria?  Arrancou a toalha da mo dele.  Terei que ser punida por ser como sou?
	No, mas...
	Deverei ser forada a usar roupas desconfortveis, apenas para esconder meu corpo?
	Bem...

	Odeio que me digam o que fazer.
	No...
	 voc quem deve controlar seus pensamentos.  Nummovimento rpido, ela se levantou, enrolando-se na toalha.  Os espelhos revelavam seus segredos, e Flynn deliciou-se com as imagens das costas nuas, salpicadas de espuma e gotas de gua.
Entretanto, o olhar de Dixie no era nada amistoso.
	Voc me olha e pensa em fazer amor com meu corpo. O problema  meu? No!
	Eu no...
	Voc pretende fingir que no teve pensamentos erticos comigo?
	No, mas... Bem...
	 meu problema se sua imaginao  frtil?
	Mas...
	Devo reprimir meu modo de ser devido ao que acontece na sua cabea?
	Eu s quis dizer...
	Eu sei muito bem o que voc quis dizer  Dixie esbravejava.  Homens como voc costumam julgar mulheres como eu apenas pela aparncia. Porm, o que no sabem  que fazemos a mesma coisa com relao a vocs.
	Um momento...
	Voc nega que no pensou em mim como um objeto sexual?
	Alto l! "Voc me beijou, esqueceu? Ningum beija um desconhecido, no meio da rua, do modo como me beijou hoje sem uma ideia premeditada de...
	Foi diferente.
	Diferente1?
	Voc pediu o beijo!
	Eu pedi o...
	Hora de sair do meu banheiro, Flynn.  Ela se protegeu com a toalha como uma dama vitoriana diante de
um brbaro.
	Como pode afirmar que pedi o beijo, se nem a conhecia? 	defendeu-se, meio embriagado com a viso da gua do banho escorrendo pelas pernas delgadas.
	Voc dorme no sof da sala de estar  Dixie ordenou.	Boa noite.
	Mas...
	Eu disse boa noite.
	Eu...
	Suma!
Flynn sumiu! Depois de fechar a porta do banheiro, ouviu Dixie atirando latas e pratos pelo cho num acesso de fria.
Mais tarde, Flynn se revirava no sof, tentando descobrir
o que dissera ou fizera de errado. Os argumentos de Dixie no faziam o menor sentido. Talvez, seu crebro estivesse . trabalhando com dificuldade pelo simples fato de estar to perto do Furaco do Texas.
Na manh seguinte, Dixie foi desperta pelo toque do telefone.
	Al?
	Bom dia, dorminhoca!  Cumprimentaram-na duas vozes em unssono.
Ela reconheceu o born humor dos dois amigos do teatro, Rob e Jan Murdock, conhecidos como Rob e Jan Munchkin, por serem ambos pequenos e adorveis.
	Estamos no saguo do hotel  Rob informou.  Viemos para transformar seu namorado num boxeador acreditvel. Podemos subir?
	Ele no  meu namorado  Dixie resmungou, lembrando-se da batalha que travara com Flynn na noite anterior. Verificou as horas. Quase dez. Hora de comear o dia.
	Tudo bem  Rob riu.  Diga o nmero da sute.
Estaremos a num minuto.
Depois de autorizar a subida do casal de amigos, Dixie foi at o banheiro. Na volta, acordou Flynn, que ainda dormia no sof.
	Acorde, doura. Temos companhia.
	Humm...  ele resmungou.  O que...
	J  dia. Levante.  Abriu as cortinas. O sol da manh inundou a sala.
Flynn gemeu, enterrando a cabea no travesseiro.
	Levante, levante  ela cantarolou, fingindo que nada acontecera na vspera.  Alguns amigos viro a qualquer momento.
	Voc est brincando!
	Quer apostar?  Abriu a porta no exato momento em que Rob e Jan chegaram.
	Bom dia!  os Munchkin gritaram, de braos dados e rindo como sempre.
	No to bom assim.  Dixie sentiu uma pontada de tristeza. Percebeu que naquela manh a viso de duas pessoas bem casadas, felizes com a companhia uma da outra, no lhe dava a costumeira satisfao.
	Vai dar tudo certo  Jan garantiu.  Trouxemos caf e baguetes.
	Neste caso, podem entrar  Dixie respondeu.
Os Munchkin trabalhavam como figurinistas. Vestiam-se com extravagncia e passavam todo o tempo livre visitando brechs, liquidaes, lojas de roupas antigas e outros locais que ningum sequer desconfiava que pudessem existir. Viviam  procura de roupas e complementos para serem usados no teatro. Amavam sua profisso, assim como amavam-se profundamente.
Rob foi direto para a mesa de caf. Parou de arrum-la, quando deparou com Flynn, sentado no sof.
	E esse o nosso heri?
Mal-humorado, Flynn fulminou-o com o olhar.
	Qual o problema, companheiro?

	Cus!  Rob movimentou a cabea, denotando desnimo.  Voc ser um desafio para nossa criatividade.
	Trouxe jornais?  Dixie indagou.
	Os tablides no saem aos domingos  Jan lembrou-a.  Ter que esperar at amanh para ver o resultado de sua histria. Isso nos dar mais tempo para trabalharmos com Flynn.
Flynn levantou-se do sof. Era muito mais alto que Rob. O dorso nu revelava os msculos dos braos e do peito. Em silncio, foi para o banheiro.
Rob piscou.
	Isso  real?  ele brincou.
	Infelizmente, sim  Dixie resmungou, fechando a por ta da sute.
	Infelizmente?  Jan aproximou-se do marido.  Creio que esses dois levantaram do lado errado de suas respectivas camas.
	Talvez devessem ter levantado da mesma cama!  Rob completou.
Riram, mas Dixie no partilhou da brincadeira.
	No achei graa.  Sentou-se no sof e abriu uma das sacolas que o casal trouxera com o caf da manh.
Rob e Jan entreolharam-se. Sentaram-se ao lado de Dixie. Esperaram at que ela se servisse de uma xcara de caf.
	Conte-nos tudo, boneca  Jan pediu.
	Sim, no esconda nada, querida.
	Do que esto falando?
Virando-se para o marido, Jan falou:
	Voc poder cortar com uma faca, no?
	Uma faca grande  Rob concordou.
	Do que esto falando?  Dixie repetiu.
	Da tenso sexual, boneca. Querido, voc no acha que Dixie est deprimida hoje?
	Na sua opinio, o que h de errado?
	Uma rusga talvez?
	Com o bonito? No acredito.
	Vocs dois, querem parar com isso?  Dixie ralhou, irritada.
	Oh  Rob continuou.  Ela parece frustrada!
	Sexualmente frustrada, voc quer dizer? No a nossa Dixie! Ela est imune a esse tipo de coisa.
	No! No estou!  Dixie confessou.
	Ela no est!  Jan aplaudiu.  Ela  humana! Oh, Dixie, conte-nos tudo. Ele  uma espcie magnfica de homem. Estamos morrendo de curiosidade para saber os detalhes.
	No h detalhes. No est acontecendo nada. Flynn concordou em nos ajudar, fingindo ser um milionrio da Califrnia. Acredito que ele ainda no tenha mudado de ideia.
	Porm, depois da noite passada...  Rob provocou-a, mas Dixie no respondeu. Olhou para Jan.  Meus deuses! O que voc acha que aconteceu?
Naquele momento, Flynn voltou para a sala. Passava a mo pelos cabelos midos. Parecia um animal selvagem saindo do meio da mata. Dixie prendeu a respirao.
Rob e Jan contiveram o riso.
Flynn ainda no se sentia totalmente desperto. Dormira mal no sof. Sonhara a noite toda com coristas em motocicletas e gngsteres armados com revlveres com catchup e omeletes  moda do Oeste. Entretanto, bastou olhar para Dixie para esquecer o cansao.
Ela vestia pijama de homem, com.desenhos de personagens de faroeste. Alguns botes do casaco do pijama estavam abertos, deixando  mostra a pele do colo. Os cabelos estavam levemente despenteados, e os olhos revelavam horas passadas em claro.
	Bom dia!  Dixie cumprimentou-o com frieza.  Dormiu bem?
	Como um beb  Flynn mentiu.
	Engraado  ela zombou.  Voc est horrvel.
	Voc tambm no est l essas coisas.
Dixie cerrou os dentes, mas conseguiu forar um sorriso.
	Estes so meus amigos, Rob e Jan Murdock. Esto aqui para ajudar.
Jan levantou-se do sof.
	Prazer em conhec-lo, sr. Flynn. Aceita um caf?
	Apenas Flynn, por favor. Obrigada.  Ele pegou a xcara que Jan lhe estendeu.
No pde evitar de reparar nas roupas de Jan. Ela vestia uma espcie de palet de smoking amarelo sob uma camiseta pink e minissaia rosa. Usava brincos enormes, anis e vrias pulseiras.
	Voc  maravilhoso por concordar em nos ajudar.  Jan explicou.  Se Joey Torrano acabar com o show, todos ns enfrentaremos dificuldades terrveis. Bem, quase duzentas pessoas ficaro desempregadas e...
Rob a interrompeu.
	Flynn no precisa ouvir nossos problemas, Jan. Ele j est sendo muito gentil em nos ajudar. E estaremos devolvendo essa gentileza, se cuidarmos de nosso trabalho imediatamente. Vamos deixar esses dois sozinhos o mais rpido possvel.
Tudo o que Flynn no queria era ficar a ss com Dixie e seu pijama adorvel.
	Fiquem  vontade.  Ele bebeu o caf.  Preciso muito da ajuda de vocs.
Jan e Rob trocaram olhares desapontados. Dixie ergueu a sobrancelha.
	O que voc est querendo dizer?
	Acordou mal-humorada?  Flynn a encarou, sorvendo o caf.
 Claro que no! Apenas... eu acho... Oo-Oh! Melhor trocar de roupa. Com licena.
	A vontade  Flynn respondeu.  Ser bom v-la completamente vestida.
	Ora, seu... Oh, no faz mal.  Dixie correu para o quarto, batendo a porta com fora, deixando Rob e Jan muito curiosos.
	No  engraado, Jan?  Rob perguntou.
	Melhor do que muita coisa que j vi no teatro. Gosta de baguetes, Flynn? Agora, vamos contar o que temos em mente.
Flynn comeu o po, enquanto ouvia as explicaes do casal. Abriram uma sacola com objetos trazidos do almo-xarifado do teatro. Espalharam pelo cho da sala objetos relacionados com a carreira de boxeador.
	Alguns anos atrs, compramos este aparelho de barbear numa loja de artigos esportivos de New Jersey  Jan exibiu um estojo de couro, com pincel e sabo.  Quando decidiram que voc passaria por um lutador, imediatamente, conclumos que estaria perfeito. Posso coloc-lo no banheiro, para o caso de algum vasculhar a sute?
	Quem poderia vasculhar?
	Algum. Um espio de Joey ou a polcia...
	A polcia?  Flynn a interrompeu.
Rob segurou outro objeto.
	Dixie no lhe contou? Joey est sempre sendo importunado pela polcia. J estiveram aqui dezenas de vezes, procurando por algo que o incriminasse.
	O que acha que a polcia poderia encontrar?  Flynn no perdeu a oportunidade para sondar.
	Quem sabe? Joey  um gngster, mas gostamos dele  Jan afirmou.  Afinal, ele tem sido muito generoso com o teatro.
	Investindo dinheiro sujo?  Flynn rebateu.
	Dinheiro  dinheiro  Rob argumentou.  Estamos desesperados. Agora, quer ouvir o resto do nosso plano?
Flynn fingiu ouvir a explanao dos amigos de Dixie. Seus pensamentos, porm, estavam voltados para Joey Torrano. Sua misso era fazer exatamente aquilo que o pessoal do teatro no desejava. Encontrar algo que o ajudasse a levar Joey para a cadeia.
Na noite anterior, j que no conseguia dormir, decidira examinar minuciosamente a sute. Tudo o que conseguira encontrar, fora peas de roupas de Dixie nos lugares mais inusitados possveis e um cardpio de um restaurante do Brooklin.
	Trouxemos charutos para voc  Jan entregou uma caixa ainda fechada para Flynn.  Achamos que combinavam com um boxeador. So daquela tabacaria ao lado do teatro. Na verdade, so da mesma marca que Joey Torrano fuma. Muito caros, vm ilegalmente de Cuba, via Mxico. Achamos que dariam um toque especial ao seu personagem. Uma marca de seu carter perigoso. O que acha? Voc fuma charutos?
	As vezes.  Flynn abriu a caixa. Examinou um charuto, enquanto Rob continuava falando.
Uma teoria comeou a se formar na mente de Flynn. Tentou encaixar tudo o que lera na pasta de Joey Torrano, com as poucas informaes obtidas atravs de Dixie Davis.
Com certeza, havia muito mais para saber por intermdio dela.
Dixie saiu do quarto, interrompendo as reflexes de Flynn. Vestia jeans, camisa comprida e colocara a peruca. Flynn no sabia se era sua imaginao ou se Dixie amenizara sua imagem provocante.
	Est pronto?  ela perguntou a Flynn, esforando-se para parecer prtica.
	Para qu?
	Hoje  domingo. Tenho matin. Vem comigo?
	D-me cinco minutos. S o tempo de um banho rpido.
 Entrou no banheiro.
Ele tivera uma ideia. No pretendia perder Dixie de vista. Principalmente, se ela fosse a qualquer lugar perto da tabacaria onde Joey Torrano comprava seus charutos contrabandeados. Alguma coisa estava acontecendo. E, se no desgrudasse de Dixie, chegaria s provas capazes de incriminar Joey Torrano.
Entretanto, quando saiu do banheiro, descobriu que Dixie partira sem esper-lo.
	Droga!
Pegou sua Harley e dirigiu-se para o elevador do hotel.

CAPITULO VI

Dixie j terminara sua sesso de massagem e comeara os exerccios de aquecimento, quando Flynn chegou ao teatro. Ele no escondia a contrariedade.
	O que aconteceu?  ela indagou, colocando os clios postios.
	No faa mais isso!  Flynn entrou no camarim, jogando o capacete sobre a mesa de maquilagem. Tubos de cremes espalharam-se em todas as direes.
	Hei! O que  isso?
	Creio que sou seu guarda-costas, srta. Davis...
	Voc est demitido  falou com rispidez, tentando ignorar o quanto Flynn estava bonito com as roupas que Rob e Jan haviam escolhido para ele.
A blusa de cashemere amarelo plido combinava com a cala caqui. A jaqueta de couro preto dava-lhe um ar misterioso e perigoso. Porm, Dixie dispusera-se a no pensar em Flynn.
	Depois da discusso de ontem  noite, suponho no precisar mais de seus servios.
	Voc no pode fazer isso! Sabe quem apareceu no hotel dois minutos depois que voc saiu?
	Joey?  A voz de Dixie tremeu. Colocou um clio postio sobre o estojo de maquilagem.  Oh, onde est a cola?
O que disse a ele?
	Nada. A segurana do hotel conseguiu impedir que ele subisse.  Flynn andava pelo pequeno espao do camarim.  Precisei sair pela cozinha novamente. Com a moto, no foi nada fcil.
Dixie conteve o riso, ao imaginar Flynn escapulindo do Plaza, carregando sua preciosa Harley-Davidson.
	Joey estava muito furioso por no encontr-la no hotel  Flynn contou.  Um de seus homens esmurrou o camareiro.
	Pobre Maurice.
	Bem, esto atrs de mim.
	Oh, doura, no se preocupe. Nada lhe acontecer, ficar conosco.
Flynn explodiu.
	Como poderei ficar com vocs, se a senhorita foge no primeiro momento de uma crise temperamental?
	Desculpe.  Pousou a mo no brao de Flynn.  Isso no se repetir mais. Acredite em mim.
Ele olhou para a mo em seu brao, mas no disse nada.
Dixie retirou a mo rapidamente. Fingiu no notar o calor da pele dele ou as pulsaes aceleradas em seu prprio punho. Passou uma camada de cola no clio e em seguida colocou-o.
	Por que demorou tanto para chegar aqui? Sua moto cicleta quebrou no caminho?
	Claro que no! Tenho minha vida particular, esqueceu?
 Sem pedir permisso, serviu-se da gua da jarra que Dixie mantinha sobre a mesa.  Precisava fazer alguns telefonemas, ver algumas pessoas.
Dixie colocou o clio. Jamais considerara a possibilidade de Flynn ter uma vida na qual no estivesse includa.
"Viu o que o teatro faz com uma pessoa? Transformou-a  numa pessoa egocntrica", uma voz ntima advertiu-a.
Fitou sua imagem refletida no espelho e suspirou.
	Est na hora de voltar para o Texas.
	O qu?  Flynn arregalou o olhos, quase se engasgando com a gua.  O que voc disse?
	Nada. Pensei em voz alta. Que tipo de telefonemas? Quem so as pessoas?
	Telefonemas e pessoas.  Ele se recusou a dar maiores esclarecimentos.
Olhando-o pelo espelho, Dixie franziu a testa.
	Voc tem namorada?
	Voc se importa com isso?  Os olhares se encontraram atravs do espelho.
O olhar de Flynn a desafiava. Dixie sentiu-se corar sob a maquilagem. Baixando a cabea, remexeu nos potes, s para ocupar-se com alguma coisa. Passou uma camada de creme no nariz,
	Claro que no. Para mim, voc  um amigo... um conhecido. Estou interessada... no curiosa, eh... oh, droga, apenas responda a minha pergunta.
	As nicas garotas da minha vida...  Para manter o clima de mistrio, ele se calou por uma frao de segundo.
 So minhas irms Mareie e Nella, que ainda cursam o segundo grau.
Observando pelo espelho, Dixie notou que o peito de Flynn roava levemente em seu ombro. Lembrou-se do brilho ardente nos olhos dele, quando a vira na banheira. A lembrana causou-lhe uma onda de calor.
	Isso quer dizer que voc  do tipo de homem fiel? Que uma nica mulher  suficiente para voc?
Ele brincou com os cachos da peruca.
	 voc quem est afirmando isso.
	Eu... Hoje voc est insuportvel, sabia?
	Acha mesmo?
O diretor do show gritou no corredor.
	Ateno todo mundo! Faltam dez minutos!
	Oh, ainda no estou pronta!  Dixie gritou, esquecendo-se da proximidade dele.  Minha roupa! Flynn, pegue meu...
	Esquea.  Ele caminhou em direo  porta.  Desta vez, vista-se sozinha, srta. Tornado!
A matin fora um suplcio. Pelo menos para Dixie. Pela primeira vez, desde que estreara no The Flatfoot and the Floozie, sentia-se como uma amadora.
No se preparara o suficiente. Pior ainda, tremia quando subira ao palco. Permitira que Flynn desviasse sua ateno do trabalho. Esquecera uma fala, errara um passo de dana e quase perdera uma entrada.
	Qual o problema?Kiki perguntara durante o intervalo.
	No sei. Estou to mal assim?
	Nem parece voc!  Kiki respondera, enlaando-a pelos ombros.  Concentre-se no show. No pense em Joey.
O problema no era Joey.
No era. At o fim do show.
Dixie correu para o camarim, evitando o resto do elenco. Queria ficar a ss para tentar achar uma explicao para seu comportamento estranho.
Flynn a esperava no corredor. Com sua jaqueta de couro preto, confundia-se com a penumbra. Surpreendeu-a quando barrou sua passagem.
A beira das lgrimas, Dixie tentou continuar o caminho. No queria conversar com ningum, especialmente com Flynn. Afinal, por culpa dele, sua performance fora pssima.
	Por que no espera no saguo do teatro, enquanto troco de roupa? No quero ver ningum...
	No volte para o camarim.  Segurando-a pelo brao, conduziu-a em direo oposta.  Joey est a nossa espera.
	Joey aqui? O que ele quer? Talvez tenha decidido assinar o contrato.
Flynn no diminuiu os passos.
	Jan e Rob conversaram com ele. Joey no veio com o advogado. Ele quer estrangul-la com certeza.
	Estrangular-me? Decididamente, hoje no  meu dia! Por que ele est to furioso?
	Por minha causa, aposto.  Flynn parecia conhecer muito bem os labirintos do teatro. Chegaram a um outro corredor, com um lance de escadas que nem mesmo Dixie conhecia.  Na edio de amanh, um dos tablides publicar uma histria fantstica sobre voc e seu novo namorado. Algum conseguiu antecipadamente uma cpia do artigo para Joey.
Dixie alarmou-se.
	Oh, no! E por isso que ele est to furioso!
	As coisas esto acontecendo conforme vocs planejaram. Mas, eu gosto do meu rosto como . No gostaria de v-lo desfigurado por um dos capangas de Joey.
Ela tambm gostava do rosto de Flynn. Mesmo assim, disse:
	No posso evitar Joey para sempre.
	Poder evit-lo por alguns anos. Voc ainda no tem condies de discutir sobre contratos com ele. No enquanto Joey no superar seu cime e o amor-prprio ferido.
Dixie admitiu que as palavras de Flynn faziam sentido.
	Ok. Para onde pretende me levar agora? Para o hotel?
	No. Com certeza, ele deixou homens por l, que no hesitaro em usar a violncia.
	Usar a violncia?  Dixie repetiu, engolindo a seco.
	Sim, homens capazes de quebrarem suas lindas pernas, por exemplo, se Joey ordenar.
	Joey no faria isso!
	Oh, no?
Na verdade, Dixie no tinha tanta certeza assim. No sabia muita coisa a respeito de Joey Torrano, exceto, que estava envolvido com o mundo do crime. Obviamente conhecia apenas seu lado bom, uma vez que convivera com ele apenas em circunstncias agradveis. Entretanto, a situao mudara. Se Joey estivesse realmente zangado por ter sido abandonado no altar, no titubearia em revelar seu verdadeiro temperamento.
	Para onde vamos?  A corrida pelos tneis do teatro deixaram-na ofegante.
	Para minha casa.
Finalmente, chegaram  rua. O impacto causado pela claridade s era superado pela resposta de Flynn.
	Sua casa? Espere, Flynn. No posso sair com esta roupa!
	Voc no vai querer voltar para seu camarim!
	Preciso de roupas. No posso sair assim!
Flynn tirou a jaqueta de couro, colocando-a nos ombros de Dixie.
	Isto  tudo o que posso fazer.
	Mas, eu...
	Deixe a peruca  ordenou, puxando os cabelos loiros.
Jogou a peruca no corredor do teatro.  Quero que seja discreta na minha moto.
	Na sua...  Dixie resistiu ao deparar com a Harley estacionada na calada.  Flynn, no posso atravessar a cidade de moto e usando esta... esta...
	Voc no tem escolha. Vamos.
	Mas... mas, Flynn...
	Qual  o problema?
Dixie no tinha coragem de revelar-lhe. Na verdade, preferia ir a p do que ficar sozinha com Flynn por um instante sequer. No encontrava palavras para explicar seu medo.
	Vamos  ele repetiu num tom que no admitia discusses.
Sem sada. Conformada, Dixie sentou-se na garupa da moto.
Flynn ligou o motor. A mquina tremeu com a potncia. A Harley deslizou pela calada at chegar  rua. Flynn dirigia com habilidade atravs do trfego intenso. As ruas de Nova York comearam a ficar para trs.
Dixie agarrou-se ao peito de Flynn com as duas mos. Os corpos se tocavam. Reconheceu que a motocicleta era sensual e excitante.
Depois de algum tempo, finalmente, Flynn entrou numa rua larga que terminava em outra mais estreita, arborizada, com muitos carros estacionados e crianas brincando. Um cachorro latiu do alto de uma janela do segundo andar de um sobrado.
Na esquina, havia uma lanchonete mais movimentada do que muitos lugares do Times Square.
Dixie bateu no peito de Flynn.
	Onde estamos?
	Num bairro tranquilo  ele respondeu por sobre o ombro, diminuindo a velocidade.
Uma mulher de cabelos grisalhos parou nos degraus do subsolo de um prdio de apartamentos. Tinha uma vassoura na mo e protegeu os olhos do sol para observar Flynn.
Flynn acenou, mas no parou at subir os trs degraus diante da porta de entrada. Ento, desligou o motor e abriu a porta com a roda dianteira da moto.
A voz da mulher chegou at eles.
	Patrick Flynn, onde voc pensa que vai com essa coisa?
	Hei, tia Jane. Vou guardar minha moto.
	Pensei que j tivesse terminado! Com certeza, voc vai deix-la na rua agora que no  mais milhes de peas espalhadas pelo apartamento.  Apesar de falar sobre a moto, a mulher no afastava o olhos de Dixie.
	E uma mquina valiosa, tia Jane. Preciso cuidar de meu investimento.
	Investimento! Motocicleta  um brinquedo, no um investimento. E quem  essa jovem, se  que posso perguntar. O que ela est vestindo? Vai  pegar um resfriado, isto sim!
	At logo, tia Jane.
	Mas... mas...
Dixie sorriu para a mulher, enquanto Flynn conduzia a moto para dentro do. prdio.
Dixie viu-se num hall escuro, frio. Tremeu s em imaginar que ele poderia subir com a moto para o segundo ou terceiro andar. Relaxou, quando Flynn tirou a chave do bolso e abriu uma porta no andar trreo.
Estendeu a mo para ajud-la a descer da moto. Depois, conduziu a Harley para dentro do apartamento.
Ela o seguiu.
O nico mvel na sala de visitas era um sof.
	No repare na decorao  Flynn brincou.   que precisei da sala para trabalhar na moto.
Estacionou a moto bem no meio da sala.
	Imagino que estes sejam os apartamentos populares de Nova York  ela comentou, olhando ao redor.
	Aqui tenho tudo que preciso.
	Incluindo uma parente curiosa.
	Toda a vizinhana  formada por parentes curiosos.
Tia Jane no subsolo, tio Jack no primeiro andar, prima Cathy, o marido, e filhos no outro lado da rua. Meus pais esto a dois blocos adiante e vov...
	Quantas pessoas so na sua famlia?
Somos sete irmos, mais papai e mame. Incluindo tios, sobrinhos, primos, avs... bem, ramos sessenta e dois no   Dia de Ao de Graas do ano passado. Dixie assoviou e fechou a porta.
	Imagino que adore famlias grandes.
Ele deu de ombros.
	Dou um jeito de escapar em todos os Natais.
Dixie andou pelo apartamento. O salto dos sapatos ressoavam no assoalho encerado. Queria conhecer o local para saber como se sentiria ali. Poderia descobrir muito sobre uma pessoa, estudando seu lar. E o apartamento era muito parecido com Flynn. Cuidadoso e prudente.
Espiou o banheiro e depois entrou na cozinha.
	Por que no se casou, Patrick Flynn? Por que no h uma poro de pequenos Patricks correndo pela casa?
Ele abriu os braos.
	Acho que sou muito ocupado. Vou procurar algo para voc vestir, ok?
	Obrigada.
Dixie o seguiu at o quarto do tamanho suficiente para uma cama e um armrio antigo. Havia uma confuso de roupas espalhadas pelo aposento. A parede era decorada por muitas fotos, possivelmente membros do cl Flynn, uma reproduo de Matisse e um pster da ilha de Anguilla. Pela porta entreaberta do minsculo loset, Dixie viu roupas, equipamentos para mergulho e uma estante com livros.
	Um mecnico de motos que mergulha no Caribe Dixie brincou.
	Gosto de sair da cidade sempre que tenho tempo.
Flynn abriu o armrio. Numa prateleira, havia uma televiso. Ele remexeu nas gavetas,  procura de algo para Dixie vestir.
	Pensei que todos os nova-iorquinos gostassem de sua cidade.
	Gostamos, sim. S que, no momento, no estou exatamente encantado.
Dixie apoiou-se no armrio para observar melhor o rosto dele.
	Como assim?
	Digamos que comeo a pensar em mudar para o subrbio.
	Longe da sua famlia?
	No. Gostaria que fossem comigo. Meu irmo...
Calou-se, fingindo indeciso entre duas camisas azuis, idnticas. Finalmente, escolheu uma, entregando-a a Dixie.
	Esta deve servir. Experimente.
	Seu irmo?  Dixie retomou a conversa, disposta a ouvir mais.
	Nada.  Flynn se contraiu, apagando qualquer emoo do rosto.  No creio que meu jeans sirva para voc. Alguma ideia?
	Voc tem algum short?
	Oh, sim.
	Otimo. E um cinto.
	 para j.  Abriu o closet, revolvendo as gavetas.
	E seu irmo?  Dixie insistiu.
Ficou em silncio por um momento. Em seguida, ele disse:
	No deveria t-lo mencionado.
	Hum... Agora, quero saber. Qual o nome dele?
	Sean.
	Sean e Patrick Flynn. Ele vive aqui tambm?
	Vivia.  Flynn ocupava-se com algumas roupas. Ele me ajudou a reconstruir a Harley. Trabalhava com motos. Mas, no ltimo vero, ele estava no lugar errado e na hora errada.
Dixie sentiu um arrepio de medo.
	Oh, Flynn...
	Oh, ele no morreu.  A expresso de Flynn era de tristeza.  Foi gravemente ferido durante um assalto a uma loja, a alguns quarteires daqui. Correu risco de vida, mas superou. Bem, os mdicos dizem que poder voltar a andar. Agora, est internado num hospital de reabilitao. Quando voltar.... bem, pretendo mudar-me da cidade.
	Nova York  uma cidade cheia de crimes  Dixie observou.
	E de criminosos. Como Joey Torrano.  Entregou um short branco para Dixie, encarando-a.  Torrano  um mau-carter, Dixie. Voc deve ficar longe dele.
Imediatamente, ele se mostrou na defensiva.
	No me importo com Joey. No quero casar-me com ele, mas...
	Ele  um contraventor, um bandido, um ladro. Provavelmente, tambm um assassino.
	No h provas  Dixie tentou argumentar.
Flynn segurou as mos dela, apertando-as.
	Voc sabe realmente o que est fazendo? Permitindo que um fora-da-lei financie seu show. No havia outra soluo?
	Precisamos do dinheiro dele  Dixie afirmou.  Quer uma soluo melhor do que usar esse dinheiro para proporcionar emprego para centenas de almas honestas? Patrocinando arte, proporcionando felicidade s pessoas...
	Ele deveria estar na cadeia!
	Pretendo conseguir seu dinheiro antes que isso acontea.
	Dixie...
	Gostaria de trocar de roupa.  Desvencilhou-se das mos dele.  Estou me sentindo nua.
_- Para voc no  novidade...
O rosto de Dixie se contraiu. Contendo a irritao, ela pediu em voz baixa.
	Flynn, por favor, leve-me de volta para o hotel.
	No. Isso est fora de cogitao.
	Sou sua prisioneira?
	No me provoque!
	No sou louca para ficar em sua casa. Voc vive como um monge e...
	No penso como um monge!  Avaliou-a dos ps  cabea com um brilho estranho no olhar.  Se pensa que  fcil ter uma corista dentro do meu apartamento, reconsidere, pois no  nada fcil!
Dixie o fitou. O pensamento de passar a noite no mesmo apartamento que Flynn, perturbou-a. Principalmente, por se tratar de um apartamento com um s quarto. De repente, sentiu as pernas trmulas.
"No seja idiota", pensou. "Ele  um cavalheiro. Cuidadoso com tudo. Com o que faz e fala. No  impulsivo como voc. Relaxe."
Dixie temia no conseguir comportar-se com o mesmo decoro que Flynn demonstrava.
Com o short e a camiseta na mo, foi para o banheiro.
	Vou me trocar.
	timo. Est com fome?
	Faminta.
	Vou providenciar algo para comermos.  Caminhou em direo  porta. De repente, voltou-se.  Ah, no atenda o telefone. Isto , no h necessidade. A secretria eletrnica anotar os recados.
	Qual o problema? Medo de chocar sua famlia?
Flynn lanou-lhe um olhar furioso, mas no respondeu.
Dixie fechou a porta do banheiro. Alguns minutos depois, ouviu-o sair do apartamento.
Flynn dirigiu-se  lanchonete. Cumprimentou Roy, o proprietrio, que entregou-lhe o cardpio. Tentou ler, mas seus pensamentos estavam em Dixie.
Em seu apartamento, ela parecia mais adorvel do que nunca. Mais real. Flynn ardia de desejo, queria toc-la, abra-la, beij-la.
"Que diabos deu em voc para traz-la para seu apartamento?", perguntou-se. "Voc no sobreviver a esta noite, a menos que passe oito horas embaixo do chuveiro gelado!"
Algum parou a seu lado no balco, interrompendo seus pensamentos. Virou-se. Tia Jane sorria, olhando-o sobre os culos.
	E ento, querido, no vai contar para sua velha tia o que est acontecendo?
	Desculpe, tia Jane. Assuntos de polcia.
	No faa isso comigo, Patrick. Sua jovem amiga no tem cara de gngster.  nesse setor que voc est trabalhando agora, no ? Gngsteres e crime organizado.
Flynn sorriu.
	Voc sabe muito bem que no posso comentar sobre meu trabalho, tia Jane. J pensou se um mafioso decidir sequestr-la, amarr-la numa cadeira e obrig-la a falar tudo o que sabe?
	Eu morreria antes!  Acariciou a mo dele.  Desta vez, no insistirei. Ela  muito bonita.
	Quem?
	A jovem que eu no vi entrar em seu apartamento.
Flynn sufocou o riso. Amava tia Jane. Era irm de sua me e considerada a excntrica da famlia. Vivia muito bem com quatro gatos e com os quadros que pintava e vendia.
	Tudo bem.  Flynn apertou a mo da tia.  Melhor mudar de assunto, antes que a prenda por interferir no trabalho da polcia. Quais as novidades?
	A novidade e que, finalmente, meu sobrinho est re comeando a viver.
	Tia Jane...
	Acredite-me. Estou muito feliz, Patrick. Voc precisa interessar-se novamente por algum.
	No estou interessado por ela.
	Pois deveria estar.
	Que bobagem, tia.
Jane no se deu por vencida.
	Bobagem? Voc precisa de uma namorada. No pode pensar em Sean o tempo todo.
	No estou pensando em Sean.
	No seja irritante, Flynn!
	No sou irritante!
Jane chamou o proprietrio.
	Roy, meu sobrinho Flynn tem uma convidada esta noite. O que voc sugere para um jantar bem romntico?
Sorrindo, Roy exclamou:
	Que novidade maravilhosa! Tenho exatamente o que voc precisa. S um minuto.
	Grande! Ento, mos  obra e capriche!  Jane ordenou.
Flynn sabia que seria intil tentar impedir que Roy atendesse ao pedido de tia Jane. Era um eterno apaixonado de tia Jane e ainda tinha esperanas de ganhar seu afeto.
	Tia Jane, no sou mais uma criana. No quero que me trate como...
	Quero mim-lo!  Tocou novamente a mo dele.  Voc merece um pouco de mimo. Voc tem sofrido muito.
	No, no tenho!
	No negue. H muito tempo estamos observando sua dor. E no h razo para tanto sofrimento, Patrick. Ningum morreu. Todos esto bem.
	Todos?
	Sean est melhorando. O que mais voc quer?
	Queria que no tivesse acontecido nada.
	No podemos mudar o passado.
	Eu poderia ter feito alguma coisa.
	O que, por exemplo?  O tom de voz de Jane era o de quem no concordava.
	Sou um tira. Minha funo  evitar os crimes.
	Oh, Patrick! Nem sempre.  Inclinou-se na direo do sobrinho.  Querido, voc no pode tornar-se o anjo da guarda da cidade inteira.
	Deveria estar apto para proteger minha famlia.
	Sean  um pouco mais do que um menino. No deveria ficar na rua at tarde da noite e ele reconhece isso. No carregue esse sentimento de culpa para o resto da vida, querido.
Esse era um velho argumento. Flynn relutava em aceit-lo.
	Ok. Ok. Vou pensar no assunto.
	Acho que comeou bem com sua garota.
	Ela no  minha garota!  Aps uma breve pausa, acrescentou:  No exatamente.
	Ento, faa alguma coisa!  Jane soltou uma gargalhada.  Ela  muito bonita. E alegre?
	Alegre? Sim.
	Maravilha! Voc precisa de um pouco de tempero na sua vida!
	Ela  toda tempero!  Flynn riu.
	 uma boa garota? No uma dessas... bem, algum que voc nem sabe de onde vem?
	No, tia Jane  afirmou com a certeza de quem dizia a verdade.  Ela  uma boa garota.
	O que voc est esperando? Roy, essa comida est pronta ou no?
Roy se aproximou carregando duas sacolas com comida e bebida.
	Aqui est. Com a garantia de derreter o corao de qualquer mulher no mundo.  Roy sorriu para tia Jane.
	Perfeito!  Tia Jane vibrava.  Agora, v cuidar da vida, Patrick Flynn!

CAPITULO VII

No caminho de volta para casa, Flynn resmungava em voz baixa:
	Ora! Ambos somos conscientes e adultos. O que tenho a perder?
No percebeu a chuva de vero que comeava a cair, at chegar ao prdio com os cabelos encharcados.
Abriu a porta do apartamento e surpreendeu-se ao ver Dixie no sof, usando suas roupas e, aparentemente, costurando suas meias. Admirou-se ao notar o quanto uma mulher tornava-se sensual com roupas masculinas.
Ela o fitou sorrindo com o j familiar brilho maroto nos olhos. Um brilho que parecia irradiar de dentro dela.
	Voc est com cara de quem vai dizer "Querida, cheguei!"
Flynn fechou a porta, absurdamente feliz por ela no ter ido embora. No fundo, temia que Dixie roubasse sua moto para fugir. Perguntou:
	O que est fazendo?
	Costurando uma meia.
	Essa meia  minha! Onde a encontrou?
	No cho do banheiro. Olhe os buracos! Decidi consert-la. Sou boa em costurar meias, sabia?  Mordendo o lbio superior, enfiou a linha na agulha.  Vov Butterfield ensinou-me no mesmo vero em que aprendi os primeiros passos de dana.
Dixie estava sentada sobre as pernas, virada para a janela. Ajeitara o short e amarrara a camisa na altura da barriga. O rosto sem maquilagem dava-lhe um ar angelical.
Ela parecia to dcil e prestativa, que Flynn no teve coragem de dizer-lhe que separara aquelas meias e outras peas de roupa para sua irm costurar.
Ainda com as sacolas da lanchonete nas mos, aproximou-se de Dixie. Ela o olhou, surpresa.
	Querida, cheguei!  murmurou.
Instintivamente, beijou-a. Adorou o gosto dela, a textura dos lbios e a sugesto de sensualidade em sua lngua. De repente, ele se afastou, pensando que precipitara os acontecimentos.
Para sua surpresa, Dixie segurou-o pelo rosto. Por um segundo, Flynn sentiu-se inseguro, sem saber o que aconteceria em seguida. Ento, fechando os olhos, Dixie o beijou lentamente.
Uma onda de calor invadiu o corpo de Flynn. Seu crebro desandou a viver fantasias erticas. De algum modo, conseguiu colocar as sacolas no cho. Passou os dedos pelos cabelos curtos e macios, para prolongar o beijo. Dixie mostrava-se deliciosamente doce e vida. Flynn lutava para manter o autocontrole.
Foi Dixie quem interrompeu o beijo.
	Voc tem nervos de ao  ela comentou ainda com a mo no pescoo dele.
	Por qu?
	Para manter-me prisioneira e agora torturar-me assim.
	Eu no considero o beijo como uma tortura.
	Refiro-me  comida. O cheiro est tentador.
Flynn disfarou sua frustrao com um trejeito cmico.
	Voc est faminta mesmo, hein?
	Quando jantaremos?
	Agora, se quiser.  Por um instante, Flynn imaginou que, talvez, ela preferisse fazer qualquer outra coisa antes.
	Onde est a mesa?  ela indagou, desapontando-o mais uma vez.
	No tenho mesa.
	Verdade? Onde voc come?
	Fora, geralmente. Ou... na cama.
A ideia no a assustou. Ergueu a sobrancelha.
	O que est tentando fazer, doura? Seduzir-me?
	Vamos comer  ele sugeriu, evitando a questo.
Dixie sabia que brincava com fogo, mas, mesmo assim, seguiu-o em direo ao quarto. Ajudou-o a desempacotar a comida. O cheiro de carne assada e picles espalhou-se pelo ar.
	Eu deveria ter adivinhado que era esta a ideia de Roy a respeito de um jantar romntico  Flynn resmungou, movimentando a cabea em desagrado.
	Quem  Roy?  Dixie sentou-se na cama, para sabo rear a comida.
	Um rapaz da vizinhana. Ele  apaixonado por tia Jane.
Tirou a blusa molhada e pegou um pulver do armrio. Dixie prendeu a respirao ao olhar o peito musculoso e os ombros largos. Flynn vestiu o pulver e aproximou-se da cama.
Dixie se movimentou, dando-lhe espao.
	Nunca imaginei que em cidades grandes existissem vizinhos como os que temos no Texas.  Ela desembrulhou um sanduche e cheirou-o. Seu estmago roncava.
	Claro que existem. Apenas no temos cercas de arame farpado ou quilmetros de relva entre nossas casas.
	Minha famlia no tem cerca de arame farpado. Nem relva. A regio  seca. O rancho de papai fica praticamente no deserto.
	Ele tem um rancho?  Flynn sentou-se na cama, servindo-se de um sanduche.  Um rancho com gado, cavalos e tudo que tiver direito? Um verdadeiro rancho texano?
	Papai cria lhamas. Mmm... Que delcia! Adoro sanduches deste tipo.
	Voc  uma mulher de gostos simples, mas, refinados.
Fale-me sobre as lhamas do Texas.
Dixie falou. Contou como seu pai transformara a criao de lhamas num negcio rentvel, em como o plo dos animais virou sucesso na fabricao de bichinhos de pelcia. De repente, estava falando sobre sua famlia. No s sobre a av Butterfield, mas tambm sobre o primo Jack, que era um policial de elite, sobre tio Floyd, ministro da igreja batista e tambm sobre o eremita de Sweet Creek, Spike Denison, que sempre vivera na cidade, mas que jamais fora visto por nenhum habitante da redondeza.
	Como sabe que ele existe se nunca o viu?Flynn indagou.
	No  preciso enxergar um homem para saber que ele est por perto.  Dixie comeu alguns pedaos de picles.
 Ele bebe duas caixas de cerveja a cada nove dias. A me dele pede sete pizzas extra grandes de muzzarela todas as noites da semana. No me diga que uma mulher de meia-idade consegue tomar todas essas cervejas e comer duas pizzas no jantar!
	Talvez ela tenha cachorros que apreciem a comida italiana.
Dixie negou com um movimento de cabea. Inclinou-se para contar o resto da histria num tom de confidncia.
	 Spike sem sombra de dvida. Dr. Martinez diz que fez o parto do beb h quarenta anos atrs. Como ningum viu a sra. Denison abrindo uma sepultura, Spike s pode estar naquela casa!
Flynn riu.
	Ora, voc est fantasiando.
	No, no estou! Juro que  verdade!
Flynn ouvia as histrias de Dixie, entre divertido e interessado. Ele descalou as botas e ajeitou os travesseiros para ambos se recostarem na cama.
A chuva caa l fora, batendo contra a vidraa. Dixie continuava falando. s vezes, sentia-se como que hipnotizada pelo olhar intenso de Flynn. Ele ouvia, observava, ria e interrompia-a com perguntas. Estava atento s histrias, mas Dixie tinha a impresso de que o pensamento dele no estava totalmente voltado para o assunto.
Surpreendeu-o olhando para suas pernas e parecia procurar mil pretextos, como servir-se de picles ou abrir mais uma garrafa de gua mineral, para toc-la.
Escurecera. Dixie comeava a achar aquela situao engraada e curiosa. Desde que chegara a Nova York, no tivera oportunidade de aproximar-se de algum. At conhecer Flynn, to protetor e to atraente.
"Esta  a melhor coisa que aconteceu em sua vida nos ltimos tempos, doura", Dixie pensou.
A boca de Flynn era sensual. Com um olhar observador, Flynn percebeu quando ela admirava os ombros largos. Dixie corou, e a resposta dele foi um sorriso que tentou esconder.
Dixie intuiu que ele tinha algo mais em mente. Sabia que Flynn no pensava s em sexo. Porm, temia perguntar. Nos olhos especulativos, havia um brilho divertido. Flynn era totalmente diferente de todos os homens que conhecera antes. Comparados a eles, esses homens pareciam garotos. E havia um pedao de sua alma que Dixie no conseguira atingir.
	Sobremesa?  ele sugeriu, depois de comerem os san duches.
	No, obrigada. Comi demais.  Espreguiou-se, satisfeita.  A menos que seja chocolate, claro.
Com ar misterioso, Flynn abriu a ltima embalagem.
	Vamos ver?  chocolate!  confirmou.  Bombas!
Dixie gemeu.
	No posso...
Porm, quando Flynn abriu a embalagem, ela no resistiu.
	Talvez, um pedao apenas...
Ele segurou o doce. Dixie tentou uma generosa mordida. Mas, acabou rindo e espalhando creme pelo rosto.
A reao mais natural, seria ela inclinar o rosto para Flynn limp-lo.
Foi o que aconteceu. Flynn limpou o rosto de Dixie. Lentamente. Fitando-a nos olhos, saboreando cada segundo daquele momento sensual.
Os olhares se encontraram, e tudo o que Dixie se lembrava era do beijo profundo e exigente. Esqueceram do chocolate, da gua, da chuva, da noite. S existiam Flynn e Dixie no mundo.
Flynn enterrou os dedos nos cabelos dela, empurrando-a contra os travesseiros. Os corpos se tocaram. Slidos e quentes. O joelho dele ajeitou-se entre os de Dixie. A cama rangeu com o peso dos corpos. O gosto de Flynn era morno e delicioso. A cabea de Dixie girou.
"Isto  loucura", gritou uma voz dentro dela. "Voc o conheceu ontem! Ainda no teve tempo de saber se gosta dele!"
Oh, mas ela gostava, sim! Muito. No pelo modo como a tocava ou beijava. No pelo modo como a ouvia e a protegia. Havia algo muito mais forte. Uma conexo que Dixie no conseguia descrever.
Ela correspondeu. Abraou-o pelo pescoo. Entreabriu os lbios para provar a lngua dele. Dixie no conteve um gemido de desejo.
Flynn beijou-a na boca com voracidade. Depois, correu os lbios pelas faces, pelas tmporas. Ela comeou a tremer, apertando-o com mais fora.
	Flynn, isto ... muito bom, mas  contra meus princpios.
	Algumas regras devem ser quebradas.
	Mas, eu... Preciso ser cuidadosa. Muitos homens... Nesta cidade, todos os homens me desejam. Sou um prato cheio
para todos os tablides...
	O prato mais delicioso que j experimentei.  Mordiscou o lbulo da orelha, enviando fascas eltricas por
todo o corpo de Dixie.

	Mas...
	Voc tambm me quer. Posso sentir.
Flynn deve ter percebido os mamilos enrijecidos sob a camisa. Ou, ento, ouvido o estrondo de seu sangue fervendo nas veias.
	Sim, eu quero  murmurou com voz trmula.  Mas  tudo to repentino, to inesperado...
	Acho que  tudo muito bonito e lento  ele disse, beijando-a no pescoo.
Todas as clulas de Dixie vibravam. Embora enfraquecida pelo desejo, sabia que precisava resistir.
	Flynn...
	Ok.  Ele respirou fundo, interrompendo os beijos ardentes. Apoiando-se nos cotovelos, concordou.  Ok. Paremos por aqui.
	timo.
	Desde que voc no est segura...
	Eu estou segura.
	Uh, Dixie?
	Mmm?
	Voc precisa me soltar  lembrou-a.
Dixie sorriu, mas continuou com os braos ao redor do pescoo dele, impedindo-o de afastar-se.
	Sei. Eu o soltarei. Primeiro, vamos conversar.
	Primeiro?
	Conte-me seu maior segredo.
	Meu...  As palavras dela confundiram-no.
	Sinto que voc est me escondendo alguma coisa. Acertei?
Ele negou com um movimento de cabea.
	No. Dixie, eu...
	Voc tem um grande segredo, Patrick Flynn?
Dixie o encarava. O olhar de Flynn era distante, como se ele lutasse com os prprios pensamentos. Com voz macia e envolvente, Dixie insistiu.
	Quero saber, Patrick. No sobre sua famlia, seus vizinhos ou sua moto valiosa. Quero saber sobre voc, Flynn.
Ele forou um sorriso.
	Essa moto valiosa  muito importante par mim.
	J percebi.  Cerrou os olhos.  O que eu quero...
	Sei, sei. Mas, a Harley ... bem, representa muita coisa importante. Meu irmo orientou-me na compra. Depois, ajudou-me a reform-la. A moto est aqui, nova em folha, mas agora...
Dixie no falou. Esperou.
E Flynn comeou a contar sobre o irmo Sean.
Sean, o irmo mais novo, que juntara-se a outros garotos de sua idade. Sean, que tirava notas medocres na escola, mas que adorava futebol, carros e motos. Um dia, comprou uma moto e juntou-se a uma gang. No de desordeiros ou bbados, mas, um grupo de rapazes que rodavam a cidade em grupo e que trabalhavam em suas mquinas o dia inteiro.
Contou tambm que Sean acabou por entrar numa loja, tarde da noite. Foi um acidente. Um acidente trgico, que quase custou a vida de um inocente.
 Ele foi baleado  Flynn explicou.  Isso foi a pior coisa que poderia me acontecer. Senti-me to intil, to responsvel que... oh, droga, nem sei o que dizer. Durante um ano, minha vida tem sido apenas preocupao e sentimento de culpa. Agora, porm, voc est aqui... ah, como posso explicar?  Passou a mo pelos cabelos.  Bem, agora, as coisas esto mudando. Sinto-me como se estivesse saindo de um tnel.
Dixie afastou os cabelos da testa dele, tentando perpetuar aquela imagem em seus olhos. A primeira imagem que vira ao fugir da igreja. O destino a guiara at Flynn. E encontrara exatamente o que tanto procurara. Um homem com corao. Um homem com sentimentos.
	Voc no deve sentir-se culpado pelo resto da vida  Dixie consolou-o.
De novo, o sorriso triste surgiu no rosto dele.
	E o que tia Jane diz.
	Tia Jane  uma mulher sensata.
	Ela disse tambm para eu seduzir a garota que veio na moto comigo.
Dixie riu.
	Disse, ?
	Tia Jane achou voc muito bonita.
	E o que voc acha?
	Acho voc linda!  Flynn sussurrou.  Sem a peruca, sem aquela maquilagem pesada e aqueles apetrechos do Velho Oeste. Nunca vi uma mulher to bonita quanto voc, Diana.
Flynn a beijou novamente. Abraaram-se com grande paixo. Uma onda de calor explodiu dentro dela. Desejava que o beijo durasse eternamente.
Mas, gradualmente, Dixie foi se conscientizando do telefone.
O toque persistente invadiu seu crebro. Os msculos de Flynn se retesaram.
	Telefone  Dixie murmurou.
	Melhor atender.
	Se for tia Jane perguntando sobre o jantar, diga que adorei.
Com relutncia, Flynn desvencilhou-se de Dixie para atender o telefone.
	Flynn.  disse simplesmente.
Do outro lado da linha, algum comeou a falar. Flynn ouvia sem se mover, mas Dixie percebeu que seu pensamento j no estava mais com ela.
Ela saiu da cama e recolheu as sobras de piquenique. Levou tudo para a cozinha. Depois, entrou no banheiro. Antes de fechar a porta, ainda ouviu-o responder por monosslabos.
Fechou a porta, acendeu a luz e mirou-se no espelho. Parecia a mesma pessoa. No entanto, sentia-se monumentalmente diferente.
 Nem sempre os adultos vivem de acordo com as regras  disse para si mesma.
Dixie sempre vivera de acordo com as regras. Era seguro manter seu comportamento dentro de certos padres. A av Butterfield aprendera isso h muito tempo, na poca em que danava no Ziegfeld Folhes. Uma mulher que no conhecia seus limites estava destinada a enfrentar grandes problemas.
Entretanto, aqueles dias j iam longe, Dixie admitiu. As mulheres poderiam ser muito mais do que rainhas de beleza. Talvez, j estivesse na hora de crescer e viver os tempos atuais.
Dixie sempre soube quem era. Sempre soube o que queria da vida.
Naquele momento, queria Flynn. Nem que fosse apenas por uma noite, queria-o.
Basicamente, ela era uma mulher impulsiva. Gostava de agir, em vez de pensar. Melhor cometer um erro do que no fazer nada. Esse fora seu lema, exceto para assuntos do corao.
Talvez, devesse agir impulsivamente nesse assunto tambm.
At ento, no tivera sorte no amor. Do quarto, Flynn ouviu Dixie fechar a porta do banheiro. Sentiu-se  vontade para conversar com o interlocutor.
	Sargento, ela est aqui  disse em voz baixa.  Precisei tir-la do teatro, porque Torrano estava furioso. Acho que seria capaz de mat-la!
	Ela est em sua casa?  Kello gritou, no acreditando no que ouvia.  Agora? Neste exato momento?
	Ela no est no quarto, mas...
	Flynn, voc enlouqueceu? Essa moa  a namorada do gngster sobre quem estamos falando! O que voc est fazendo  completamente contra os regulamentos da polcia!
	Precisava agir rapidamente. No queria que ele a ferisse... ou coisa pior. Torrano est transtornado pelo cime.
	Cime? O que voc est fazendo com a namorada dele, Flynn?
	Cuidando da segurana dela. Trouxe-a para minha casa, porque Torrano no sabe quem sou. Ela ficar bem aqui. Pelo menos, mais segura do que se estivesse danando num palco da Broadway. Voc tem uma ideia melhor?
	No, no. Creio que no. Voc precisou improvisar.
	Kello suspirou com impacincia.  Ok. O que voc descobriu? Alguma coisa til?
	H um restaurante no Brooklin que talvez valha a pena investigar.
	Oh, sim?
Flynn informou o nome e o endereo do restaurante que anotara na sute do Plaza.
	Pode no ser nada, mas lembro de ter lido a respeito desse restaurante algum tempo atrs  Flynn prosseguiu.
	Talvez, seja uma pista.
	Pode ser. O nome no  estranho, no. Vou perguntar aos rapazes se sabem de alguma coisa. Ok. O que mais?
	H uma tabacaria prxima ao teatro onde Dixie est se apresentando.
	Dixie?  Kello repetiu.  At agora era srta. Davis.
	Que seja. Sobre a tabacaria...
	Sim?
	Hoje estava fechada, por isso no pude investigar. Acho que precisamos descobrir quem  o proprietrio, o que acontece por l.
	O que acha que est acontecendo?
	Conexo Mxico. J que no conseguimos incriminar Torrano por outras atividades, talvez seja possvel acus-lo de contrabando.
Sargento  Kello  calou-se  por  um  instante.  Depois, murmurou:
	Foi essa a ttica que Eliot Ness e seus rapazes usaram para colocar as mos em Capone. Sonegao de impostos.
	Ser um meio de mand-lo para a cadeia. E o que queremos, no?
	Certo.  Kello refletiu por alguns momentos.  Ok. Qual  seu plano?
	Precisamos da ajuda da Imigrao.
	Conheo uma mulher que trabalha l. Ela  muito competente.
	Pea-lhe para contar tudo o que descobriram sobre Torrano. Se trabalharmos juntos, ser mais fcil juntar provas.
	Nesse nterim, voc continua pressionando a namorada dele.
A porta do banheiro foi aberta. Flynn virou-se a tempo de ver Dixie se deitar sob os lenis. Sua boca secou e no conseguiu responder ao sargento. Dixie estava nua.
Se a imagem da corista favorita da Amrica j era suficiente para enlouquecer qualquer homem, Dixie nua era uma viso capaz de paralisar at o homem mais insensvel do mundo!
	Flynn?  o sargento chamou-o.  A tal Davis... Voc j descobriu algo sobre Torrano atravs dela?
Flynn abriu a boca, porm, no conseguiu emitir nenhum som.
	Flynn?  Kello insistiu.  Est me ouvindo?
Dixie apagou a luz. Flynn pode perceber as curvas do corpo sob os lenis. As pernas longas e delgadas. O busto proporcional  cintura e aos quadris. O sorriso era iluminado. Tremulo, Flynn perdera a fala.
	Flynn? Flynn?  Kello repetia.
Finalmente, Flynn recuperou a fala.
	Tudo bem! At logo! -Entregou o fone para a mo estendida de Dixie.
Ela desligou o telefone, olhando fixamente para Flynn.
	No, no posso esperar mais  ela sussurrou. Puxou Flynn, forando-o a deitar-se a seu lado. Colocou as mos no peito dele.  Voc no se importa, no , doura?
Flynn acariciou-a nos braos.
	Importar-me?
	Quero fazer amor. A noite inteira.
	Dixie...
	Pensei muito a respeito. Nunca agi assim, voc sabe. Nunca dormi com um homem que no fosse meu marido.
 Lentamente, ergueu o pulver de Flynn, introduzindo as mos para acarici-lo.  J lhe contei, no?
	Sim, mas...  Tentou concentrar-se no que pretendia dizer, mas o toque suave das mos dela causavam curto-circuito em seu sistema nervoso. A realidade de uma mulher bonita em sua cama era quase mais do que conseguiria lidar.
	Meu primeiro casamento foi coisa de adolescente.  Correu os dedos pelo peito musculoso.  Ns nos amvamos muito, mas no durou para sempre.  ramos crianas.
	E... e o segundo?
	Um homem mais velho. - Ela sorriu.  Ele tinha trinta e eu vinte e cinco. Hoje, sei que ele queria um trofeu como esposa. O casamento durou poucos meses. Desde ento, trago o corao fechado a sete chaves.
	Quanto tempo?
	Dois anos.
	Dois anos?  Flynn repetiu, surpreso.
	Sim. H dois anos vivo sozinha. Flynn...
	Se voc me pedir para ser gentil, melhor saber desde j que ser impossvel!
Ela riu. Relaxando, entreabriu as pernas para ajeitar Flynn.
	No  isso. Quero apenas que me previna se achar que vou me arrepender.
	Pensei que Dixie Davis nunca se arrependesse de nada.
	Verdade  ela murmurou.
	No posso prometer nada. No, enquanto no tiver certeza de poder cumprir. Porm, quero proteg-la, Diana. Quero-a em segurana.
	Creio que estou segura com voc.
	Isso  suficiente?
	Talvez.  Beijou-o.  Espero.
O beijo foi suave, terno. Pouco mais do que uma leve carcia, na verdade. Imediatamente, o desejo que Flynn conseguira conter, desde o momento em que o telefone tocara, explodiu em toda sua fora. Abraou-a, acariciando a curva dos quadris, sentindo a pele macia e morna.
Os seios dela comprimiam-se contra seu peito. De repente, o corpo todo estava em chamas. A lngua de Dixie penetrou em sua boca, explorando-a em movimentos mgicos. O sangue parecia em ebulio. Flynn gemia. Quando os corpos se amoldaram, ela pode sentir a fora do desejo dele.
	No quebre o corao dela, Flynn  aconselhava-o a voz da conscincia.  No machuque essa mulher. Se fizer amor hoje e sair de sua vida amanh, ela jamais o perdoar.
Pior. Ela jamais se perdoaria, tambm.
Entretanto, ele no podia parar. Dixie era to perfeita, to sensual. As linhas delgadas de seu corpo combinavam com a vulnerabilidade de sua alma. Flynn no resistia a essa combinao.
	Quero toc-la por inteiro  ele murmurou.
	Toque-me.
Num movimento rpido, ele tirou o pulver. Inclinado sobre ela, afagou-a nos seios, na barriga, nas coxas. Quando tocou o ponto mais sensvel, observou Dixie tremendo de excitao. A resposta foi rpida. Ela gemia e seus olhos estavam luminosos.
Para Dixie, aquele momento parecia um sonho. A despeito do corao descompassado, Flynn era gentil e paciente. Sua masculinidade estava completamente rgida. Permitia que ele a acariciasse segundo sua fantasia. Nunca experimentara nada mais deliciosamente excitante. Ele ofegava, cobrindo-a com os lbios, com a lngua, com as mos.
Flynn tocara-a em todo o corpo. Dixie vibrava com as sensaes que ele despertava. Ajudou-o a tirar o resto da roupa, ansiosa por subir os prximos degraus daquela paixo.
	No posso esperar, Flynn.
	Quero prolongar esta noite.
Ele teve a prudncia de abrir a gaveta da mesa-de-ca-beceira. Abriu uma caixa. Dixie riu, quando viu de que se tratava.
Voc  cuidadoso!  brincou.
	Bem, no esquea de que voc est em abstinncia h dois anos.
	Estava apenas esperando pelo momento certo.
	Estou contente por voc ter esperado.
O que Dixie no explicou, era que esperava pelo homem certo e no pelo momento certo. E l estava ele. Gentil, suave e sensual tambm.
Ajudou-o com o preservativo, acariciando-o at Flynn soltar um gemido de prazer.
Novamente, Flynn deitou-se sobre ela. Beijou-a. Depois de cada beijo, uma carcia que a enfraquecia cada vez mais.
Por fim, Flynn a penetrou. Ela soltou um grito abafado, mas, em seguida, relaxou. Iniciaram os movimentos cadenciados da dana do amor.
Dixie gemia, deixando-se envolver pelo redemoinho de emoes. De repente, um mundo de cores explodiu em sua mente, arrastando-a para mundos estrelados e festivos.
Em seguida, foi a vez de Flynn atingir o pice da realizao. Seu corpo todo tremeu, no momento do xtase.
Depois, cansados, ambos se largaram na cama, deliciosamente exaustos. Trocaram palavras sem sentido, ainda entorpecidos pelo prazer, e pela satisfao do desejo realizado. Logo, as carcias de Flynn recomearam. Lentas, a princpio. Dixie viu-se explorando o corpo dele tambm. Ele era bonito. To forte. To insacivel.
Mais tarde, quase adormecida, Dixie sentiu uma pontada de preocupao.
"Talvez tudo isso seja um erro", pensou.
Flynn abraou-a com os lbios em seu pescoo. Dormindo, murmurou o nome dela. O verdadeiro nome.
Sorrindo, Dixie ajeitou-se para dormir tambm.

CAPITULO VIII

Na segunda-feira, Dixie acordou dizendo:  Hoje no temos apresentao. Poderemos ficar na cama o dia inteiro.
Na manh de tera-feira, comentou:
	O que eu mais gosto em Nova York so os restaurantes que entregam a encomenda em casa. Voc sabe h quanto tempo no coloco uma roupa?
	Sei  Flynn afirmou com os olhos brilhando. Puxou os lenis que revelavam os corpos nus.  Sei. Acredite-me.
Almoaram comida chinesa de um restaurante do bairro. A comida fora entregue por um adolescente que, aparentemente, no estranhou o fato de Flynn atender  porta enrolado num lenol, pela terceira vez, em dois dias.
Com os palitos chineses, ele contornava os seios de Dixie, provocando-a. Ela ria, adorando a brincadeira. Alm das interminveis horas de prazer e brincadeira, houve tambm momentos de profunda emoo. Dixie se comprazia com o riso de Flynn. Era muito bom v-lo descontrado.
Tia Jane telefonou depois do almoo. Flynn ouvia, respondendo s perguntas com relutncia. Ele se sentia como se tivesse aterrissado no paraso e temia quebrar o encanto.
	Patrick, aquela jovem bonita ainda est a?  Tia Jane no disfarava a curiosidade.
	Voc sabe que sim, tia Jane.  Flynn recostou-se nos travesseiros.  Voc est vigiando minha porta como um co de guarda!
Tudo bem, tudo bem  ela admitiu.  Bem, apenas achei que devia contar-lhe que toda a famlia reconheceu sua foto nos jornais.
	Que foto?
	Todas as fotos!  O tom de tia Jane era de severidade.  Apesar daquele bigode ridculo, seus irmos e irms o reconheceram na hora. Bem, voc sabe, eles so discretos demais para telefonar e perguntar o que  verdade e o que  mentira nessa histria esquisita.
	Que histria, tia Jane?  Entregou os palitos para Dixie.
	Os tablides esto dizendo que voc  um boxeador, querido, e que  o novo protetor daquela bailarina do show The Flatfoot and the Floozie. Bem, ns sabemos que voc no  um lutador de boxe. A menos que considere os anos na escola do padre O'Brien, no entendemos absolutamente nada do que est acontecendo.
Flynn desejava que o resto do mundo desaparecesse, s para ter Dixie em sua cama para sempre. Entretanto, a realidade era inexorvel. Suspirou.
	Prometo contar-lhe tudo dentro de alguns dias, ok?
	Assuntos de polcia?
	Sim.
Com o canto dos olhos, Flynn observou Dixie. Ela estava muito prxima, mas, aparentemente, no prestava ateno  conversa. Com os palitos chineses, tocava nos cabelos do peito de Flynn, sem a menor ideia de que brincava com fogo.
	Oh, cus! Quanto mistrio! Tudo isso agua minha curiosidade. S mais uma coisa  tia Jane pediu.  Aquela jovem bonita da moto... ela  do Texas, por acaso?
	Sim.  Segurou os palitos, interrompendo a brincadeira. J ardia de desejo.  Agora, preciso desligar, tia Jane.
	Ok. Mas, quero saber a histria toda at o fim da semana.
	Sim, madame. Tchau.
Desligou o telefone e atirou longe os palitos. Fingiu lutar com Dixie por alguns momentos antes de recomear a aca-
rici-la, porm, ela parecia mais interessada em rir do que em fazer amor.
	Ser que voc no consegue ficar mais de uma hora
sem me amar?  ela indagou maliciosamente.
	 muito difcil controlar-me, todavia, desta vez ser preciso.  Abrindo a gaveta da mesa-de-cabeceira, mostrou-lhe a caixa de preservativos vazia.  Terminou nosso estoque. Terei de ir at a farmcia.
Ela sentou na cama. Ergueu os ombros.
	E eu tenho de ir ao teatro hoje. Vou tomar um banho e me vestir.
	Acho melhor no ir ainda.  Ajeitou os travesseiros, para ela se recostar. Queria oferecer-lhe o melhor. Apenas o fato de v-la em sua cama, j o excitava.  Deixe-me olh-la.
Dixie o tocou com intimidade.
	Creio que voc tem muito mais em mente do que ape nas olhar.  Riu.
	No. Realmente, no. Apenas... oh, Dixie!
Ela desapareceu sob os lenis, dando incio a uma performance de mgico erotismo. Flynn permitiu que ela o agradasse, at transform-lo num animal desvairado.
Momentos depois, enquanto ele recompunha suas foras, ela se sentou na cama e telefonou para Kiki, a amiga do teatro. Pediu-lhe para passar no Plaza e pegar algumas coisas na sute.
	Fique tranquila. Trarei tudo o que me pediu.  Kiki prontificou-se.  J leu os jornais?
Kiki contou-lhe que todos os jornais de Nova York, principalmente os tablides sensacionalistas, haviam publicado a incrvel histria do Furaco do Texas que trocara o namorado gngster por um boxeador milionrio da Califrnia.
	Kiki me disse que voc est muito bem nas fotos  Dixie comentou com Flynn, depois de desligar o telefone.
 Parece que voc ficou mesmo com cara de milionrio e de perigoso. Acho que  melhor ator do que imagina.
No final da tarde, no caminho para o teatro, compraram jornais. Leram as reportagens no camarim de Dixie. Todos os amigos dela fizeram questo de cumpriment-los. Vibravam pelo fato de o plano de Dixie estar funcionando. Flynn estava feliz por ver o quanto ela era querida por todos os que trabalhavam no teatro.
Alguns atores ofereceram-se para orientar Flynn com relao ao seu personagem. At a cabeleireira do teatro aconselhou-o:
	Vamos dar um toque nesse cabelo? Bastar cortar nos lados, entendeu? Voc parecer mais perigoso e misterioso.
O que acha?
Flynn no achava nada. Apenas permitiu que ela realizasse seu trabalho.
Kiki, que lia a um canto do camarim, de repente, agitou o jornal para chamar a ateno dos colegas.
	Hei, turma! Esta reportagem diz que os tiras tambm esto atrs de Joey Torrano!
	Por qu?  algum perguntou, rindo.  Isto , por qual de seus crimes? Ele est envolvido praticamente em tudo que  ilegal neste Estado. Oh, desculpe, Dixie.
Ela negou com um movimento de cabea.
	Nunca afirmei que ele  santo.
	Se Joey for para a cadeia antes de nos dar o dinheiro, a sim, ficaremos em dificuldades.  Kiki no escondia a preocupao.
	Acho que ele est a salvo da polcia  Dixie confidenciou.
Em silncio, Flynn observava Dixie. Ela parecia muito segura da inocncia de Joey Torrano. Sequer desconfiava dos sentimentos de Dixie, em relao ao homem com quem quase se casara. Perguntou-se como Dixie reagiria, quando descobrisse que ele era um dos policiais empenhados na priso de Joey Torrano.
Remexeu-se desconfortavelmente na cadeira. No gostava de mentir para Dixie, mas pretendia prender Torrano o mais rpido possvel. De repente, percebeu que a priso de Joey poderia arruinar todos os planos que Dixie elaborara para salvar o espetculo The Flatfoot and the Floozie.
Fique quieto  a cabeleireira ralhou, quando Flynn estremeceu.  Voc no quer que estrague seu cabelo, no ?
Desculpe.
Imvel, ele lutava contra os temores que o assaltavam.
Receava que seu papel na priso de Torrano pudesse comprometer o relacionamento com Dixie. Conhecendo a natureza impulsiva dela, temia que rompesse, saindo definitivamente de sua vida. Dixie jamais o perdoaria por t-la enganado.
Vendo-a rindo com seus amigos, Flynn no pde evitar uma pontada de remorso.
Finalmente, os atores voltaram para os respectivos camarins. Dixie comeou seu ritual de preparao. Quando Sven chegou para a sesso de massagens, Flynn avisou que precisava ausentar-se para resolver alguns assuntos.
Beijou-a e saiu, consciente de que precisava trabalhar depois de passar trs dias fazendo amor com a mulher a quem deveria vigiar. A mulher a quem estava usando.
Flynn prometeu a si mesmo encontrar um meio de contar a Dixie que no era um mecnico de motos. Ela tinha o direito de saber a verdade. Antes que ele destrusse todos os sonhos dela.
O show da tera-feira transcorreu muito bem para Dixie. Sentiu-se absolutamente em forma, e sua voz nunca esteve to harmoniosa. Seu alto astral contribuiu para uma noite memorvel na cama de Flynn. Na quarta-feira, depois da matin e do espetculo noturno, saiu do teatro exausta.
	Que tal  pararmos para jantar no caminho?  Flynn sugeriu, aps de um dia de estranho silncio.  Conheo um lugar tranquilo. Poderamos... conversar um pouco.
	Conversar? Sobre o qu?
Ele encolheu os ombros.
	Sobre qualquer coisa.
Dixie bocejou e espreguiou-se. As quartas-feiras eram muito desgastantes com duas apresentaes.
	Hoje, no tenho energia para mais nada. S quero um copo de leite e cama. Estou morta de cansao.
	Ok.
Introduziu os dedos no cs da cala de Flynn, puxando-o de encontro a si.
	Vem comigo?
Ele sorriu, enlaando-a.
	S se permitir que eu prepare seu leite.
	 vontade.  Ofereceu os lbios para um beijo.
Na quinta-feira, Dixie acordou tarde e sozinha na cama. Flynn deixara um bilhete no espelho do banheiro, avisando que voltaria por volta das duas da tarde.
Dixie verificou as horas. Passava do meio-dia.
Decidiu que chegara o momento de forar Joey a tomar unia atitude. Deveria pedir o dinheiro para financiar o show o mais rpido possvel, enquanto ele ainda se mostrava irritado o suficiente para acreditar na histria do milionrio californiano.
Discou o nmero de Joey Torrano. Quando uma voz masculina atendeu, ela se identificou.
	Aqui  Dixie. Quero falar com Joey.
Do outro lado, o homem gargalhou.
	Quem diz que ele quer falar com voc?
	Avise-o, George.
Dixie conhecia muito bem o chefe dos seguranas de Joey.
Era uma pessoa desagradvel. A ltima vez que Dixie o vira, George estava estatelado na calada da igreja. A julgar pelo tom de voz, ele no parecia disposto a esquecer o incidente.
	Ligue mais tarde  George ordenou.  No prximo ano, por exemplo, quando voc j estiver esquecida e fora de circulao.
	Se Joey souber que telefonei e que voc no passou a ligao, quem ficar fora de circulao, George?
Ele se calou por um instante. Depois, disse:
	Vou avis-lo.
Passaram-se mais de cinco minutos, mas Dixie estava preparada para esperar. Finalmente, ouviu a voz de Joey.
	O que voc quer?
No se intimidou com o tom rspido. Com a ajuda dos colegas, preparara um discurso, com o qual esperava convencer Joey.
Mantendo a serenidade, comeou:
	Joey, doura, quero que saiba que os jornais esto publicando uma tonelada de mentiras.
	Acha que vou acreditar em voc? Vi as fotos do sujeito com quem est envolvida.  A respirao dele tornou-se pesada.
	Isso  coisa passageira, Joey.  Carregou a voz de emoo.  Eu... eu preciso v-lo novamente.
	Para qu?
	No me negue isso, Joey. Gostaria de conversar com voc.
	No tenho tempo para voc!
	Joey, por favor.
Ela no se importou de pedir. Sabia que esse tipo de comportamento s enalteceria o ego de Joey. Estava disposta a pagar o preo justo pelo dinheiro dele. Ento, o adulou ostensivamente. Fazia parte do plano.
Depois de um longo momento, Joey concordou.
	Ok. Venha ao meu escritrio.
	No posso ir at a. Os fotgrafos esto sempre de prontido. Vamos marcar em outro lugar.
	Onde voc sugere?
	Central Park?
Ele riu.
	Acha que passaremos despercebidos se nos encontrar mos no Central Park?
	No estarei embonecada!
	Ok  Joey assentiu.  Anote o local. Chame um txi para lev-la. A menos que venha com o tal lutador...
	No, no!  apressou-se em esclarecer.  Irei sozinha. Em que lugar do parque?
Ela anotou para no haver um mal-entendido.
	Obrigada, Joey. Dentro de uma hora estarei l.
	Sim. Ok.
	Ah, outra coisa! Certifique-se de que no ser seguido.
	Destruo as cmeras de quem se atrever a seguir-me!
	No me refiro aos fotgrafos, Joey.
	Do que voc est falando? Dos tiras? No me faa rir!
Joey desligou sem despedir-se.
Depois de um banho rpido, Dixie vestiu uma das roupas que a amiga trouxera do hotel. Cala preta e camisa cinza discretas, que no realavam as linhas de seu corpo. Olhou para os cabelos, decidindo que precisava de um chapu.
Talvez, Flynn tivesse algum.
Abriu o closet, vasculhando os equipamentos esportivos. No demorou a encontrar um bon azul-marinho, entre uma luva e um taco. Pegou-o.
	N.Y.P.D.  em voz alta, leu as letras inscritas.  Onde Flynn conseguiu um bon da polcia?  resmungou.
Deu de ombros. Mais tarde, perguntaria a ele. Colocando o bon sobre os cabelos curtos, mirou-se no espelho do banheiro. Gostou do modo como escondia os cabelos e encobria o rosto. Escreveu um bilhete para Flynn, explicando que o encontraria  noite no teatro.
Depois, telefonou para Jerry, seu motorista de txi preferido. Combinaram que ele a pegaria em meia hora, na esquina.
O Central Park estava repleto de pessoas que aproveitavam o dia quente para almoar ao ar livre. Dixie preferira marcar o encontro num lugar pblico, de modo que a agradava ver muitos cidados honestos nas proximidades. Esperou por Joey, tentando no levantar suspeitas. Sem seu disfarce de Dixie Davis, dificilmente algum a reconheceria.
Pelo menos uma vez, seria Diana Davis, uma pessoa comum.
Por fim, um carro cinza-escuro chegou ao local combinado. No se surpreendeu ao ver Joey descendo do veculo, seguido por George, o fiel guarda-costas.
Joey vestia jogging e, m passos rpidos, caminhou na direo de Dixie. Segurou-a pelo brao, guiando-a para o parque.
	Hei, doura!
	Vamos caminhar  ele falou com rispidez, a despeito do cumprimento caloroso.  Preciso de exerccio.
Joey no era alto. Talvez, da altura de Dixie e preocupava-se em manter a forma fsica. Caminhava diariamente e quase no bebia. Sua paixo, entretanto, eram as massas e comidas condimentadas. Por isso, travava uma eterna luta contra o excesso de peso. Era um homem atraente, com feies marcantes, cabelos pretos, aparados semanalmente. A salincia do lbio inferior dava-lhe um ar sisudo, que muitas mulheres consideravam atraente.
	Sua aparncia est tima  Dixie falou, apenas para agrad-lo.  Realmente tima, doura.
	Desde quando voc se importa?
	Voc sabe que me importo, Joey.
	Nem tanto  ele rebateu.  Voc me humilhou. Ningum faz isso sem receber o merecido castigo.
	Ah, no negue que voc foi favorecido por toda a publicidade que houve em torno do caso  Dixie argumentou.
Joey no respondeu.
	Talvez, as pessoas leiam as reportagens e cheguem a concluso que fui uma ingrata por deix-lo daquele modo. Talvez, as pessoas gostem mais de voc depois de tudo o que aconteceu  ela ponderou.  Acho que foi muito bom para sua imagem. Voc no acha?
Joey continuou a caminhar. Com certeza, Dixie tocara em seu ponto fraco, pois, finalmente, ele quebrou o silncio.
	No vejo as coisas desse modo.
	Bem, isso  o que o pessoal comenta no teatro.
Joey diminuiu a velocidade dos passos.
	?
	Na verdade, no posso dizer que ganhei novos amigos, depois do que fiz...
	Ento, agora o pessoal do teatro gosta de mim?
	Sempre gostou, Joey. Voc  uma pessoa carismtica.
Dixie o bajulou ainda mais, alimentando a vaidade e a arrogncia de Joey Torrano. Quase conseguiu convenc-lo de que ela era a vil da histria, por t-lo abandonado no altar. O humor de Joey comeava a melhorar. Aliviada, Dixie percebeu que a primeira parte do plano comeava a funcionar.
	Importa-se de sentarmos?  Dixie perguntou.  Re conheo que no sou preo para voc. 
Fingiu cansao, apenas para observar melhor o rosto de Joey. Acertara o alvo.
Joey escolheu um banco prximo a um tanque, onde crianas e adultos brincavam com modelos de barcos. Adiante, um grupo de adolescentes ouvia um aparelho porttil de CD, enquanto patinavam. No banco oposto, de frente para Dixie e Joey, uma senhora lia um livro e comia uma ma.
	Ok.  Joey acomodou-se no banco.  Por que insistiu em me ver?
Dixie hesitou.
	Primeiro, para pedir desculpas. Sinto muito por tudo o que aconteceu, Joey. A culpa foi minha. Sei que voc jamais me aceitaria de novo, depois de t-lo magoado tanto, mas... Bem, quero apenas que saiba que admiro muito o modo pelo qual est lidando com esta situao provocada por mim.
Aquele era o discurso correto. O fato de assumir toda a culpa e tambm de eliminar toda e qualquer possibilidade de reatarem o relacionamento, s enaltecia o amor-prprio ferido de Joey. Ele parecia gostar das palavras de Dixie, que continuava falando, desculpando-se, elogiando, at v-lo acariciar sua mo e concordar com movimentos de cabea.
Dixie comeava a acreditar que seu talento como atriz no estava sendo bem aproveitado. Depois dessa conversa, estaria apta para representar qualquer papel dramtico! Joey parecia acreditar em tudo o que ouvia.
Cuidadosamente, passou para o segundo ato do plano.
	Sinto muito por ser a responsvel pelo fracasso de seu investimento.
	Que investimento?  ele perguntou.
	The Flatfoot and the Floozie. Sei o quanto foi importante produzir seu primeiro show na Broadway. Eu... bem, espero, sinceramente, no ter prejudicado tudo.
	Ainda sou o produtor.
	Sim, mas... bem, seu contrato inicial terminou. Como estamos apresentando o espetculo apenas a algumas semanas, ainda no houve um retorno financeiro. Teremos que encerrar a temporada.
	Hum...  Joey limitou-se a resmungar sem qualquer comentrio.
	Seu investimento sofrer prejuzo por culpa minha.
	Bem...
	Creio que h uma grande chance desse boxeador da Califrnia investir no show, mas ele no  voc, Joey. Ele no entende absolutamente nada sobre show business. Ao contrrio de voc, que tem um talento natural...
	Sempre participei do mundo do show business  Joey a interrompeu.  Para mim,  uma espcie de hobby.
	Hobby?  Dixie forou o riso.  Desejaria ter um hobby to lucrativo assim!
	No recebi um centavo! Ainda no!
	Receber com The Flatfoot. Isto , receberia se eu no tivesse estragado tudo. Tenho certeza de que seu prximo show ser um sucesso.
Dixie suspirou e esperou. Era Joey quem deveria sugerir o prximo passo.
Joey no era do tipo de pessoa que tomava decises rpidas. Uma das razes por no ter sido apanhado pela polcia era sua determinao em no em entrar em qualquer negcio, sem antes estudar cuidadosamente todos os ngulos.
Por fim, ele se manifestou.
	Melhor marcarmos novo encontro, Dixie. Para jantar.
	Jantar?
Ele a encarou. Os olhos dele eram indecifrveis no rosto quase bonito. Quando o vira pela primeira vez, Dixie intimidara-se com o olhar de Joey. Ainda tremia, quando os olhares se encontravam. Joey no fazia concesses. Sabia muito bem que muitas pessoas prximas a ele haviam desaparecido em circunstncias misteriosas.
	Sim, jantar  Joey confirmou.  Nada romntico. Apenas... para tratarmos de negcios.
	No sou muito boa nos negcios, Joey.
	Sobre The Flatfoot and the Floozie. No sou homem de voltar atrs com minha palavra, voc sabe.
	Bem, geralmente no . Porm, desta vez voc teria boas razes... No gosto de ser passado para trs, principalmente por um sujeito que pensa que  esperto apenas porque ensanguentou   alguns narizes num ringue de boxe.
Dixie percebeu o rosto de Joey se contrair. Tratou de acalm-lo.
	Ningum disse...
	Ento, est combinado. Esta noite, depois do show.
	Esta noite?
	Sim. Voc ter problemas com esse jantar?
	No, no. Sem problemas. Vamos ao seu restaurante no Brooklin?
Joey riu.
	Voc gosta do meu novo restaurante?
	Adoro comida mexicana. Voc sabe disso.
	Ok. Encontre-me l, depois do show. Mandarei um carro busc-la.
	Obrigada, Joey.  Dixie se inclinou para beij-lo na face. Afagou a mo dele tambm.  Voc  um homem maravilhoso, Joey Torrano.
	Sim.  Ele sorriu, confiante.  Sei.
Dixie deixou-o no parque. Caminhou alguns metros e virou-se para trs. Joey acenou.
A mulher que lia o livro, levantou a cabea e. os olhou. Ela usava culos de sol e tinha uma mochila a seu lado. Apesar da distncia, Dixie notou outra ala, alm da mochila.
Quando ela se levantou, Dixie viu que a ala pertencia a um revlver.
A mulher, que lia um livro e comia ma, era uma policial.
Dixie saiu correndo do parque e entrou no txi que a esperava. Pediu a Jerry que a levasse para o teatro e recostou-se no banco. Temia que tudo casse por terra, antes de terminar sua misso de convencer Joey a renovar o contrato de financiamento de The Flatfoot and the Floozie.
 Tomara que no! - murmurou. 
Naquela tarde, durante a reunio semanal do sargento Kello com os membros do Organized Crime Unit, Flynn no acreditava em seus ouvidos.
	Ela fez o qu?
A detetive Lucy verificou suas anotaes.
	Observei-os no parque durante vinte minutos, Flynn. O que quer que seja o negcio da Davis, definitivamente inclui nosso homem Torrano.
	Impossvel  Flynn controlou-se para no dizer mais nada. Todos os colegas o olhavam com curiosidade. Ningum precisava saber que ele mantinha um relacionamento nada profissional com a mulher sobre quem discutiam.
	Evidente que no  completamente impossvel  Kello interveio, olhando para Flynn por sobre os culos.
	Se me permitem, creio que devemos investigar essa Davis com mais cuidado  o detetive Belsano, sugeriu.  Ela  do Texas, certo? Esse Estado faz fronteira com o Mxico. Talvez, ela esteja mais envolvida do que acreditamos a princpio.
Flynn esforou-se para no protestar. Respirando fundo, conseguiu expressar-se com calma.
	Sargento, o senhor conversou com sua amiga do De partamento de Imigrao?
	Ela tem estado muito ocupada  Kello respondeu.  Alguma coisa de muito importante est acontecendo por l. Mas, ela prometeu me telefonar daqui a dois ou trs dias. At l, temos de nos contentar com o que j descobrimos.
	Poderemos prender Torrano por extorso?  um dos policiais indagou.
	O escritrio do D.A. informou que no  um caso muito claro, mas, no momento,  melhor do que nada.  Kello franziu as sobrancelhas, refletindo. Depois, concordou: Vamos fazer isso.
	Prend-lo?  Flynn questionou-o, subitamente preocupado.  Tem certeza de que  a soluo ideal? Quero dizer, se esperarmos mais alguns dias...
	Qual o problema, Flynn? Pensei que tivesse mais pressa do que todos ns para ver esse homem atrs das grades!
	Claro que sim! Mas...
Com um gesto, Kello encerrou a discusso.
	Prendam Torrano.
Belsano se levantou ansioso.
	Agora?
	Esta noite. Assim, o D.A. ter um dia agitado.
_ Ok  Belsano concordou.  Quem vai participar da brincadeira?
	Por que no todo o departamento?  Kello riu.
Todos se levantaram, dando a reunio por encerrada. Todos, menos Flynn.
"Ainda  cedo", ele pensou. "Preciso saber qual a participao de Dixie nessa histria toda. E como vou livr-la!"

CAPITULO IX

Flynn chegou ao teatro mais tarde do que planejara. Entrou no camarim de Dixie, encontrando-o vazio.
Assustada, Kiki Barnes correu at ele. Lutava com o zper da fantasia.
	Flynn! Onde est Dixie?
	Ela no est aqui?  Automaticamente, fechou o zper da roupa da atriz.
Ela negou com um movimento de cabea.
	Dixie nunca faltou! Onde ela est?
	No sei. No a vejo desde cedo.
	Ento, onde...  Kiki cobriu a boca com as mos, como se quisesse sufocar um grito.  Oh, Flynn, o show comear daqui a quinze minutos. Onde ela poderia estar?
Flynn praguejou. Sentiu o sangue fugir-lhe do rosto. Uma onda de medo o invadiu.
	Oh, cus!  Kiki prendeu a respirao.  Algo terrvel
deve ter acontecido. Joey fez alguma coisa, no?
Flynn segurou-a pelo brao.
	Calma. No precisa entrar em pnico. Talvez, esteja passeando pela cidade. Sabe como ela . De repente, sentiu uma vontade incontrolvel de visitar a Esttua da Liberdade.
Nem ele mesmo acreditava em suas palavras.
	Mas, e o show?  Kiki choramingava.
	Inventem alguma coisa. Improvisem. Sei l!  Flynn a soltou.  Nesse meio tempo, encontrarei Dixie.
	Flynn, por favor, seja cuidadoso. Joey ... ele no  um homem delicado.
	Fale-me a respeito dele, Kiki.
Dixie deveria ter desconfiado que havia algo errado, quando Jerry, o motorista de txi, pegou um caminho errado, alguns quarteires adiante do Plaza. Porm, somente depois de alguns quilmetros, ela percebeu que alguma coisa estranha estava acontecendo. O maior indcio fora o fato de Jerry estar muito calado, contrariando sua costumeira tagarelice.
	Jerry, o que aconteceu?  Apoiou os braos no banco dianteiro.
O motorista suava, porm, mantinha as mos firmes no volante, e os olhos fixos no caminho.
	Sinto muito, srta. Davis. Sinto muito mesmo.
	O que houve, Jerry?
Ele enxugou o suor que molhava sua testa.
	Ele  meu chefe, srta. Davis. Tenho que obedecer s ordens dele.
	Tenho um show esta noite, Jerry. Os ingressos esto esgotados, o teatro estar lotado e...
	Sinto muito. Sinto muito mesmo  ele repetiu.
	Voc pode, pelo menos, contar para onde est me levando?
	O sr. Torrano mandou traz-la. No me falou nada sobre contar-lhe.
Dixie endireitou-se no banco, aborrecida e um pouco amedrontada. Deveria ter adivinhado que Joey no cederia com tanta facilidade. Ele guardara um trunfo para usar no momento certo. Como poderia ter desconfiado se ele fora to amvel no parque? Claro que no daria o que Dixie pedira. No, sem antes puni-la.
Um tremor percorreu o corpo de Dixie. O que Joey teria em mente?
Flynn ligou para Belsano de um telefone pblico prximo ao teatro.
	Voc est cuidando dos detalhes da diligncia desta noite, certo?
	Certo  Belsano concordou. Era um policial astuto que parecia sempre desconfiado.  Por que pergunta?
	Preciso saber. H alguma pista de Torrano?
	Sim. Por qu?
	Pode me dizer onde ele est?
	As ltimas notcias so de que foi visto num carro atravessando a ponte do Brooklin. Por qu?
	Obrigado, Belsano.
	Flynn, espere! O que vai...
Flynn desligou antes que o colega terminasse a frase. Subiu na moto e partiu em dreo ao Brooklin a toda velocidade. O medo enrijecia seus nervos. O trfego estava intenso. Flynn ziguezagueava perigosamente entre os carros e caminhes. Pela primeira vez, no se preocupava com a segurana da moto.
Dixie estava em dificuldades. S isso importava.
Estacionou a Harley em frente ao restaurante Hacienda. Notou um carro de polcia no fim do quarteiro. Caminhou at o veculo. Os ocupantes, dois colegas do Organized Crime, bebiam refrigerante em lata. Inclinando a cabea, Flynn falou com o motorista:
	Hei, Jlio. O que est acontecendo?
	Estamos de olho em Joey Torrano at Belsano chegar para prend-lo.
	H algum com ele?
	O cortejo de sempre.
Flynn esforou-se para agir com naturalidade.
	Alguma mulher, por acaso?
Jlio e o parceiro riram.
	Por que Flynn? Pretende marcar encontro?
	Estou procurando Dixie Davis.
	Ah, no diga que voc a perdeu!  Os dois policiais continuaram a rir.  Que azar, Flynn.
	Ela no apareceu no teatro hoje.
A expresso de Jlio mudou.
	Acha que Torrano a sequestrou?
Flynn receava responder. Olhou em todas as direes com esperana de avistar Dixie. Respirou fundo. Precisava controlar o pnico que crescia dentro dele.
Jlio colocou a cabea para fora da janela do carro.
	Hei, Flynn, fique calmo, homem. Precisa de ajuda?
	Sim. Acho melhor no esperar por Belsano.
	Voc quer dizer que entraremos no restaurante para prender Torrano? Agora? S ns trs?  Jlio piscava, perplexo. Sem um mandado de priso?
	Chame Belsano pelo rdio. Ele deve estar a caminho. Rpido, Jlio. Dixie deve estar em perigo!
Jerry deixou Dixie nos fundos do restaurante. Mais uma vez, ele pediu desculpas. George a conduziu para dentro, atravs da cozinha.
Dixie teve um mau pressentimento. Sentiu os joelhos trmulos s de lembrar das histrias terrveis sobre os mtodos que Joey usava para descartar-se de pessoas indesejveis.
Verificou as horas. Estava quase na hora de comear o espetculo.
Nenhum dos funcionrios da cozinha se voltou para olh-los. Na verdade, trabalhavam no mais absoluto silncio. O nico som era o da salsa, que um rdio transmitia.
Entrando por uma porta vaivm, George a levou at a sala de jantar do restaurante mexicano de Joey. A sala estava escura, mas Dixie notou a decorao com motivos tpicos. Cerca de vinte pessoas jantavam quela hora. Um nico garom servia s mesas. Entre apressado e confuso, corria entre as mesas, usando um gigantesco sombrero.
A comida fumegava no bufe, porm, para Dixie, o cheiro no parecia to autntico quanto a comida que estava acostumada a saborear no circuito Mex-Tex.
Joey estava sentado numa mesa de canto. A sua frente, diversos pratos que escolhera no bufe e um copo com gua. Ele tomava um comprimido efervescente para o estmago.
Dixie esforou-se para mostrar-se alegre e despreocupada.
	Hei, Joey, doura. Que surpresa! Pensei que jantara mos somente depois do show!
Sente-se  Joey ordenou, enxugando os lbios com um guardanapo. Guardou o frasco com os comprimidos no bolso do palet. Com um movimento de cabea, dispensou George. O guarda-costas desapareceu.
Dixie sentou-se na cadeira ao lado de Joey.
	Doura, o cheiro da comida est timo e...
Joey a interrompeu bruscamente.
	O cheiro est horrvel e o gosto pior! De quem foi a ideia de abrir um restaurante mexicano entre a comunidade judaica do Brooklin?
Dixie absteve-se de comentar que a ideia fora dele. Preferiu dizer:
	Oua, Joey, poderamos apenas...
	Cale a boca e oua!
	Mas...
Ele a silenciou com um olhar mortal. Depois, falou calmamente:
	Odeio fazer isso com voc, Dix.
	Absolutamente no!  Belsano gritou pelo rdio.  No prenda Joey Torrano antes de minha chegada, Flynn! No faa isso! Ainda no tenho a ordem de priso. O juiz no me ouviu. No se atreva...
Flynn desligou.
	Vamos  avisou a Jlio.  Estou faminto.
Juntos, os trs policiais atravessaram a rua. Jlio decidiu , entrar pela porta dos fundos, atravs da cozinha. Flynn e o outro policial esperaram dois minutos e entraram pela porta principal. Demoraram alguns segundos para acostumarem-se com a escurido da sala. Em seguida, Jlio apareceu na porta vaivm.
Flynn avistou Dixie. Seu corao quase parou.
Ela estava sentada ao lado de Joey, com expresso sria. Joey tambm no parecia muito satisfeito.
Soltando um longo suspiro, Flynn se aproximou da mesa, seguido pelos dois policiais.
Joey e Dixie ergueram a cabea. O olhar de Torrano era de fria, o dela de medo.
	Joey Torrano  Flynn falou com firmeza.  Voc est preso.
V para o inferno!  Torrano respondeu.  Vocs no conseguiram provas contra mim. Falei pessoalmente com o juiz.
	Voc tem o direito de permanecer em silncio  Flynn continuou, no registrando as palavras de Torrano.
	Onde est o mandado de priso?
	Tudo o que disser poder ser usado contra voc no tribunal...
	Onde est o mandado'?
	Oh, cus!  Dixie interveio.  Isto no pode estar acontecendo. Flynn, que diabos voc est fazendo?
Jlio circulou a mesa com as algemas na mo. Flynn desistiu de lembrar o discurso correto. Disse:
	Dixie, sinto muito. Deveria ter-lhe contado antes. Sou um tira.
	Um tirai  Ela se levantou to bruscamente que derrubou a cadeira.
	Guardei segredo porque sabia...
	Voc  um tirai  ela esbravejou, batendo as mos na mesa com tanta fora que os pratos pularam. Seu olhar parecia lanar dardos.  No acredito que tenha escondido de mim algo to importante!
O corao de Flynn se contraiu. Tentou segurar a mo dela.
	Sei que a decepcionei, mas...
Dixie afastou a mo.
	Quanto cinismo!
Joey Torrano tambm comeou a gritar. Jlio continuou a recitar em voz alta:
	Voc tem o direito de permanecer em silncio...
De repente, todos gritavam ao mesmo tempo.
	Voc me enganou!
	Deveria ter contado antes, porm, nunca surgiu o momento certo.
	Voc no pode me prender sem ordem do juiz!
A confuso era generalizada. De repente, Dixie pegou um dos pratos de comida da frente de Torrano. Atirou-o direto na direo de Flynn. Uma poro de taco atingiu o peito dele. Todos se calaram.
	Exijo que me conte tudo neste exato momento!  Dixie ordenou.
 Dixie...
Flynn no pretendia protelar mais o momento da verdade, porm, sua momentnea hesitao foi suficiente para enfurec-la. Dixie pegou outro prato, esse com molho de tomate e guacamole.
Atirou-o. Dessa vez, Flynn desviou a tempo.
O prato voou sobre a cabea dele, atingindo George, que vinha em socorro do chefe. O guacamole esparramou-se no peito do guarda-costas, deixando uma imensa mancha verde e vermelha.
Uma mulher que jantava em uma das mesas gritava desesperadamente.
Jlio desistiu de algemar Torrano e tentou conter a ira de Dixie. Com um empurro, ela se livrou do policial. Rapidamente, ela se apossou de outro prato, lanando-o direto na camisa imaculada de Jlio.
	Ora, sua...  Ele passou a mo no peito, enchendo-a de comida mexicana. Devolveu a poro, atingindo o rosto de Dixie.
Ela reagiu pegando o ltimo prato sobre a mesa que ocupava, e este passou ao lado de Jlio para alojar-se no queixo de Joey Torrano.
Tivera incio uma bizarra batalha. Jlio assumiu uma posio estratgica ao lado do bufe, de onde podia escolher entre os pratos cremosos, slidos e doces. Seu parceiro tentava escapar da confuso engatinhando entre as mesas. Na pressa, puxou uma toalha, derrubando todos os pratos da mesa em cima dele mesmo. As pessoas que jantavam naquela mesa, gritaram e fugiram assustadas. Menos um adolescente, que anunciou:
	Guerra de comida! Uau!  Juntou-se  batalha.
George recolhia comida do cho, atirando-a em Flynn.
Antes, atingira Dixie no rosto, com uma quantidade de guacamole. O guarda-costas ria. Dixie revidou. Aproximou-se de uma pilha de pratos sujos e comeou a atir-los com toda a fora, procurando atingir George. O barulho era terrvel. George apressou-se em procurar abrigo.
Flynn parou no meio do restaurante. Num gesto desanimado, abriu os braos.
	Que diabos eu fiz de errado?  perguntou quase solenemente.
	O que voc fez de errado?  Dixie gritou, desviando dos pratos voadores.  O que voc fez de errado?
Flynn tentou defender-se.
	Dixie, nunca imaginei que as coisas chegassem a este ponto, mas...
Foi interrompido por uma poro de enchilada quente, que o atingiu no queixo. Dixie caiu na gargalhada.
	Ficou perfeito em voc!
Flynn sentiu os nervos  flor da pele. Furioso, aproximou-se do bufe de sobremesas. Escolheu uma travessa com mousse de chocolate. Depois, mirou o rosto de Dixie.
	Ficou perfeito em mim, no ?
Dixie no conseguiu fugir a tempo. O mousse de chocolate explodiu em seu peito.
	O que voc est fazendo aqui?  Flynn continuou. E por que no teve a decncia de avisar-me sobre tudo o que estava acontecendo? A propsito, o que est acontecendo aqui?
Dixie no teve tempo de responder. Recebeu um prato de salada, arremessado pelo adolescente. Perdendo o equilbrio, escorregou no mousse de chocolate. Caiu ao cho, no meio daquela estranha mistura de comidas.
Flynn esboou um movimento para ajud-la. Tarde demais. Com agilidade, ela se sentou, apanhou uma quantidade de mousse atirando no rosto de Flynn. Ela recomeou a rir. Carrancudo, Flynn puxou-a pelo brao at deix-la em segurana, embaixo de uma mesa.
	Agora, conte-me o que est acontecendo  ele insistiu.
Dixie ria.
	No sei se devo lhe dizer como voc fica bem com esse creme no rosto!
Mesmo com o rosto cheio de comida, Dixie continuava' linda. O peito de Flynn inchava de satisfao s por v-la. O alvio que sentia era incomensurvel. Ela estava salva. Em seus braos. E rindo.
	Eu te amo  Flynn confessou.
 Eu sei.  Enlaou-o pelo pescoo.  Tambm te amo.
Os lbios dela continuavam to macios, sensuais e exigentes quanto da primeira vez que Flynn os beijara. Naquele momento, porm, a sensualidade aumentara, graas ao sabor do mousse de chocolate, comida mexicana, risos e alto astral. Flynn gemeu de prazer, envolvendo-a completamente em seus braos.
Continuaram assim at a chegada do sargento Kello e toda a equipe do Organized Crime Unit, momentos depois. Abraados, trocando beijos e palavras de amor.
	O que aconteceu aqui?  O sargento Kello indagou, assim que entrou no restaurante.
Sua voz de trovo conseguiu acabar com a guerra de comida.
Quanto tudo se acalmou, Flynn saiu de debaixo da mesa.
	Al, sargento Kello.
	Flynn?
Dixie tambm se levantou. Tirou o bon azul da N.Y.P.D. e passou os dedos pelos cabelos curtos.
DavisfKello no escondeu a surpresa.E voc mesma? Flynn os olhava confuso.
	De onde vocs se conhecem?
	Isso no tem a menor importncia!  Kello gritou.
 O que aconteceu? Onde est Torrano?
Jlio apareceu, trazendo Torrano pelo brao.
	Aqui, senhor.
	O que est fazendo com ele?
	Dando-lhe voz de priso, senhor.
	Como? Ainda no temos o mandado!
Flynn resmungou algo ininteligvel. Os demais policiais entreolharam-se desapontados. Meses de ferrenha investigao acabara em nada. Kello encarou Flynn furiosamente.
Dixie se aproximou do sargento.
	Creio que agora o assunto  comigo, sargento.
	O qu?  Num salto, Flynn parou ao lado dela. Do que voc est falando?
Dixie tirou uma pequena carteira de couro de dentro do bolso da camisa cinza, abrindo-a. Exibiu para todos verem o distintivo da polcia.
Sorriu meio sem graa para Flynn. Depois, virou-se para Joey Torrano.
	Sr. Torrano  ela. comeou.  O senhor est preso por violar o cdigo de imigrao dos Estados Unidos. Tenho uma ordem de priso e extradio emitidos pelo Estado do Texas, por contrabando.
	Voc  tira?  Flynn perguntou.
	Um momento  Kello olhou para Flynn.  De onde voc conhece a detetive Davis?
	Detetive? O senhor est brincando! Esta  ela! Esta  Dixie Davis, o Furaco do Texas!
	Agora  voc quem est brincando!  Kello exclamou. 	Furaco do Texas?
	Apenas por algumas semanas  Dixie explicou, sentindo-se uma herona por ter conseguido guardar segredo.
	Normalmente, sou uma oficial do Departamento de Imigrao. Vim para Nova York numa misso especial, para capturar Joey Torrano e mand-lo para a cadeia.
Kello e Flynn disseram em unssono.
	No acredito!

EPLOGO

Mais tarde, Dixie e Flynn voltaram para a _Lsute do Plaza.
	Voc poderia ter me contado  Flynn reclamou num tom ressentido.
	Voc deveria ter me contado  Dixie o corrigiu.  Pensei que fosse um mecnico de motos.
	E voc me fez acreditar que era uma estrela da Broadway!
Juntos, relaxaram na banheira, rodeados por montanhas de espuma perfumada. Dixie usava sua marca registrada. O chapu branco de caubi. Flynn, porm, estava conforta-velmente nu.
	Eu era mesmo uma estrela da Broadway  lembrou-o.  D para acreditar? Nunca imaginei que isso pudesse acontecer comigo. Vim para Nova York determinada a me aproximar de Torrano. Um teste para o show que ele estava montando, pareceu-me o caminho mais rpido para realizar meu intento.
	Depois de tantos anos sentando no colo da vov Butterfield, voc deve ter aprendido muitas coisas sobre uma corista, no ?
	 verdade. Acho que eu no era to ruim assim, entretanto, reconhea que somente o fato de ter flertado com Joey Torrano, elevou-me  categoria de prima donna.  Riu.  Bem, depois de tornar-me a estrela do show, precisei mudar meu nome para evitar que algum contasse a Joey sobre minha verdadeira profisso.
	Ento, inventou o Furaco do Texas.
	Sim. Voc no imagina a quantidade de telefonemas desesperados que dei para a mame, em busca de conselhos e dicas.
	Aparentemente, os conselhos foram teis.  Flynn esfregou a ponta do nariz no pescoo de Dixie.
Ela sentiu um arrepio pelo corpo.
	O-oh, Flynn... No comece algo que talvez no possa terminar!
	Quem disse que no poderei terminar? Confesso que ainda estou meio chocado com todos os acontecimentos desta noite, mas garanto que nada me arrancar da sua cama hoje, srta. Tornado.
Dixie suspirou, colando seu corpo ao dele.
	Estou feliz por voc ter aparecido no restaurante, Flynn.
Beijando o lbulo da orelha dela, Flynn murmurou:
	Est mesmo?
	Claro! No sei se teria conseguido enfrentar Torrano sozinha.
	Mas...  hesitou por um instante.  Sinto muito por The Flatfoot and the Floozie. Voc estava empenhada em manter o show em cartaz, no?
	Completamente.
	O que acontecer agora?  Flynn perguntou.  Com Torrano na cadeia, suas contas bancrias sero bloqueadas.
Todos os contratos sero cancelados.
Dixie sorriu com uma ponta de cinismo.
	Pensei nisso.
	Pensou?
Dixie desvencilhou-se dele e apoiou-se na borda da banheira. Esticando o brao, alcanou a camisa cinza. Tirou um pedao de papel do bolso.
	O que  isso?
	Um cheque  Dixie explicou, segurando-o contra a luz. Sorriu, orgulhosa.  Meio milho de dlares! Suficiente para o espetculo se manter em p at conseguirem outro financiador.
	Como voc conseguiu?
	Com muitos elogios, com muito bl-bl-bl, convenci Torrano a me entregar este cheque, antes de voc entrar no restaurante e depois que ele me despediu do papel de estrela do show.
	Ele a despediu?
	Sim. Como punio por t-lo abandonado na igreja.
Ele disse que Kiki poder ficar no meu lugar.
	Conversei com ela hoje, antes do incio do espetculo. Kiki estava muito preocupada com voc.
	Amanh cedo, telefonarei para ela contando as novidades e, principalmente, sobre o cheque. Quero que ela v ao banco logo na primeira hora.
Sorrindo, ele. tirou o chapu de Dixie, jogando-o sobre o balco de mrmore. Dixie colocou o cheque na gaveta mais prxima. Depois, voltou para os braos de Flynn.
Dixie cerrou os olhos, concluindo que tirara a sorte grande. Conseguira cumprir sua misso sob circunstncias quase impossveis. Alm disso, realizara uma fantasia longamente alimentada. Cantara e danara num tipo de palco onde sua me e sua av haviam pisado antes dela.
E, acima de tudo, encontrara o amor. O amor com o qual j desistira de sonhar, por considerar impossvel de acontecer em sua vida. Encontrara Flynn. Forte, alegre, impulsivo quando necessrio, firme como uma rocha quando a situao exigia.
	Eu te amo  ela murmurou, traando um caminho sobre o peito dele.
	Que bom  Flynn respondeu com voz enrouquecida.  Eu te amo, Diana Davis, ou quem quer que voc seja. E agora? O que vai acontecer?
	Passaremos uma noite maravilhosa juntos.
	A ltima noite?  Flynn no conseguiu evitar uma pontada "de medo.
	Eu... espero que no.
Segurando-a pelo queixo, Flynn obrigou-a a fit-lo. Beijou-a levemente. Entreabrindo os lbios, Dixie tentou capturar a lngua dele com a sua. Flynn, entretanto, no estava disposto a brincadeiras. Aprofundando o beijo, apertou-a mais em seus braos.
Dixie sentiu o corpo dele despertando. Comeou a tremer de desejo.
	Flynn...
	Quero voc  ele sussurrou.  Desesperadamente.
Agora e para sempre.
	Agora e para sempre  Dixie repetiu, contendo as lgrimas.
Tomando-a nos braos, ele a tirou da banheira. Levou-a para o quarto e, com os corpos midos, atiraram-se na cama. Ardendo de paixo, Dixie gemia com as carcias atrevidas de Flynn. Quase gritou de felicidade, quando ele encontrou seu caminho para dentro dela. Mais uma vez, chegaram juntos ao universo de exploses e cores que s atravs do amor seria possvel vivenciar.
Depois, abraados, descansaram. Uma chama brilhante os envolveu, quente e poderosa.
	Eu te amo.
	Eu, tambm, te amo.
As palavras pareciam acompanhar o ritmo das batidas dos coraes.
Dixie apoiou a cabea no ombro dele.
	Flynn, no perteno a Nova York.
	Eu sei.  ele disse com calma.
	Minha vida, minha famlia... Tudo est no Texas. Aqui, sou uma caipira, uma estranha.
	No  verdade.
	Sou, sim. Aqui, sinto-me como um peixe fora d'gua.
	Tudo bem.  Apertou a mo dela.  Ento, cabe a mim decidir?
Dixie levantou a cabea, para olh-lo melhor.
	O que voc est querendo dizer?
Pela cortina entreaberta, ele vislumbrava uma faixa do Central Park. Da janela do Plaza, Nova York parecia uma cidade sossegada. O brilho de um sorriso iluminou o rosto de Flynn.
	Ser que no Texas h lugar para um tira irlands?
	Mas, Flynn... Sua famlia? Seu irmo Sean, sua tia Jane... tudo! Voc se afastaria de todos?
	No tenho escolha!  brincou.  No vivo sem voc, Diana.
Ela suspirou, aliviada.
	Que maravilha! Pensei que precisaria recorrer ao beijo Butterfeld novamente!
Flynn soltou uma gargalhada.
	Recorrer a qu?
	Ao... bem, talvez seja melhor no saber.  Dixie decidiu guardar o segredo por mais algum tempo. Acariciou o peito dele.  Depois de casados, posso precisar dele, uma vez ou outra.
	Casados, huh? Poderemos nos casar no caminho para o Texas  Flynn sugeriu.
	No caminho?
	Sim. Pensei em viajarmos na Harley.
	Fazer uma viagem de Nova York ao Texas numa motocicleta?  Dixie o olhou meio na dvida;
	Ela no  uma simples motocicleta. E uma Harley!
Dixie refletiu por um instante. Depois, sorriu animada.
	Ser uma viagem longa e divertida, no?
	Faremos com que dure a vida inteira, se voc quiser.
Dixie aninhou-se nos braos dele.
	Definitivamente,  tudo o que mais desejo, Patrick Flynn!

FIM
